quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Livro: Dias de abandono


Quando fui pra Curitiba apresentar um trabalho num congresso, coloquei só o Ipad na mala, porque estava estudando muito e os textos eram em .pdf. Mas aí, quando cheguei lá, tinha uma feira do livro em alguns pontos da cidade, uma livraria ao lado do hotel e a venda de livros técnicos no congresso. Acho que voltei com dez volumes na mala. Dias de abandono foi o único de ficção, porque estamos empenhados em estudar cada vez mais.

Fazia tempo que eu queria ler Dias de abandono. O livro é bem fino (perto da Tetralogia Napolitana, é um conto), mas denso pra caramba. E cheio de camadas, como é bom. A narradora é Olga, uma mulher que já começa dizendo que o marido disse que a deixaria. Ela está com os dois filhos, sem entender o motivo de ter sido abandonada. Ela sofre, fica sem saber o que fazer, para onde ir, como conseguir o marido de volta, como cuidar dos filhos. Como sobreviver quando o chão desaparece?

Porém, É Elena Ferrante, né? Nada é simples, nada é limpo, nada é linear. Olga não é uma narradora confiável. Parece que temos duas histórias acontecendo ao mesmo tempo: a que Olga conta e a que se passa com ela. Então, não tem como deixar de dizer o óbvio: Elena Ferrante é genial!

Tirando Um amor incômodo, que foi meio estranho (mas um ótimo livro de estreia), a obra da Elena Ferrante é muito boa. Dá para tirar algumas coisas que se repetem, mesmo que se desenvolvam de forma diferente: a relação mãe e filha, a violência entre os casais, a sempre presente superioridade masculina, os gritos e a violência familiar, a fuga dos lugares de origem e a impossibilidade do desvencilhamento.

Da Elena Ferrante, ainda não li Frantumaglia, mas tô doidinha pra ler!

O que já li da autora:
Sobre a Tetralogia Napolitana
Sobre A amiga genial
Sobre História do novo sobrenome
Sobre História de quem foge e de quem fica

Sobre Story of the lost child
Sobre A filha perdida

Sobre Um amor incômodo

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #162

1 - Estado civil
Da Priscila Cattoni. Um texto muito bonito sobre luto e sobre as transformações da vida. Chorei muito na leitura.

2 - Amor ou telemarketing?
Ainda da Priscila Cattoni. Sobre a invasão absurda de uma campanha de marketing de funerária. E outras coisas quetais.

3 - Por que o Brasil não ganha o Nobel de Literatura
Do André Forastieri. Uma reflexão bem interessante sobre a literatura contemporânea brasileira. Com pesquisa para embasar e mostrar que, no fim, não temos Nobel porque realmente falta qualidade. Bem de leve, ele pergunta onde estão os nossos escritores com o porte de Svetlana Alexievitch (tenho três livros dela e só li um, que é arrebatador)

4 - Corpinho de Biquini
Da Ludmila. Sobre corpos, biquínis, verões, padrões.

5 - I made it!
Da Amanda Lourenço. Acompanhei pelo blog e pelo Instagram a caminhada da Amanda pela Apalachian Trail, nos Estados Unidos. Muita vontade de fazer o mesmo. Pouquíssima coragem, né? Vou seguir acompanhando, porque a ideia dela é escrever um livro e deve ser muito bom, melhor do que o da Cheryl Strayed, que é bem interessante, mas meio chatinho.

6 - 3 semanas
Da Helô Righetto. Sobre as separações necessárias quando um casal é quase uma pessoa só. Muito bonitinho, e foi muito engraçado me identificar com a Helô no quesito "só eu lavo roupa" e "nunca cozinho".

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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O que (eu acho que) tem de bom pra ler na net #161

1 - 0013
Do Draminha, esse blog fofinho. Sobre Elena Ferrante e a Tetralogia Napolitana. Delícia de texto. A autora ainda concorda comigo sobre o Enzo, melhor personagem da série. Talvez o único que presta. Não sei se eu concordo com ela sobre a Lila, mas acho que ela é melhor que a Lenu, sim.

2 - Por que a cultura nerd odeia as mulheres
Do Think Olga. Uma reflexão sobre o ódio às mulheres e, ainda, aos negros, dentro da cultura nerd. Vale a pena ler e pensar a respeito.

3 - A cura
Do Ramon Cotta. Sobre uma cura para algo que não é doença. Sobre esses tempos loucos que estamos vivendo no Brasil.

4 - 2007-2017 Uma década de transformações
Da Lady Bug. Como foi bacana ver a Lúcia revisando esse período! Eu acompanhava o trabalho pela lista super ativa, então, dos Jornalistas da Web, sempre com discussões muito ricas. Seguia de longe os encontros no Gafanhoto, por motivos de estar longe o suficiente, e fiquei fascinada com o modelo de desconferência. Aprendi muito! E deu saudade.

5 - A terrível verdade sobre o golpe comunista em curso no Brasil
Do Sakamoto. Porque é bom rir um pouco quando a situação está caótica.

6 -  Quinze maneiras de identificar relações abusivas e o que podemos fazer
Da Karina Kuschnir. Um ótimo texto, com caminhos interessantes, tanto para ver que há relação abusiva quanto para levantar ações para se livrar delas. É preciso começar por algum lugar...

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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Livro: História do Lance!



Quando me vi acadêmica de Jornalismo, no século passado (g-zus!!), meu primeiro movimento foi para o jornalismo esportivo. Desde que comecei a ler jornais, ainda sem nem me imaginar no jornalismo, era o caderno de esportes que eu pegava primeiro. Depois cultura, depois o primeiro. Sempre fui doida com esportes, mesmo não sendo boa praticante. Já contei a saga de viver sem televisão em meio à principal disputa esportiva no planeta. Falo sempre que há uma televisão lá na agência apenas porque eu queria ver a Copa do Mundo. E que eu sabia, há uns anos, o Guia dos Curiosos - Esportes quase de cor, em especial as partes das Olimpíadas e da Copa do Mundo.

Porém, na faculdade eu acabei indo pra outro lado, o da produção de TV, enquanto a vida profissional me levou para as assessorias de imprensa. Continuei gostando de esportes, mas dei uma desencantada geral com o jornalismo esportivo. Só voltei a olhar de novo pra essa área no mestrado, quando comecei um estágio de docência informal na disciplina de Jornalismo Esportivo. Daí pra começar a ler mais sobre a área, ver a teoria e tal foi um pulo. E o Lance! surgiu assim meio do nada, porque é o único jornal diário do Brasil dedicado totalmente aos esportes, com foco em futebol. Foi quando esse livro do Mauricio Stycer (que eu conheço mais como crítico de TV) pulou na minha frente.

O livro é fruto da dissertação de mestrado do Maurício, na área de Sociologia. Como um dos editores do Lance! quando o jornal foi lançado, ele tem muita história de bastidores pra contar, mas não é isso que faz aqui. Ele pesquisa a história do jornalismo esportivo brasileiro, levantando desde os primórdios das notícias de esportes, perdidas em uma edição normal, até o lançamento dos primeiros jornais dedicados, com destaque para dois: a Gazeta Esportiva (que hoje é um site, sem edição impressa) e o Jornal dos Sports (já falecido). Ele conta como o Lance! foi pensado, criado, investido, todo o trabalho de projeto editorial criado junto ao projeto gráfico, como as duas redações (uma no Rio, outra em São Paulo) se coordenavam, para terem material específico e conjunto.

O texto tem aquela forma acadêmica própria, mas tem muito do estilo que a Sociologia preserva. Tive um pouco de dificuldade em encontrar no clima correto do texto, porque escreve-se, na Comunicação, de forma bastante diferente. Maurício é muito minucioso e levanta detalhes bem interessantes sobre cada momento da pesquisa, o que deixa o trabalho bastante rico. Porém, não entra em questões próprias do jornalismo, o que me deixou um pouco frustrada. O único momento em que acredito que o jornalismo prevaleça é quando ele fala sobre o projeto editorial, criado com o auxílio de um profissional espanhol, e das dificuldades que esse projeto trouxe para o corpo de repórteres e editores. Foi bem interessante poder acompanhar isso.

No fim, foi uma leitura boa, mas que me deixou um pouco frustrada, porque eu esperava mais de jornalismo, menos de história e sociologia. Por outro lado, me deixou com várias ideias...


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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Livro: Tesouros enterrados de Lost



Ganhei o Tesouros enterrados de Lost O guia não-oficial para tudo o que os fãs de Lost precisam saber do meu orientador do mestrado. Foi um dia muito louco: ele me ligou, me chamando pra ir à casa dele e me mostrou uma montanha de livros que iria doar, e eu seria a primeira pessoa a ver. Pude escolher o que quisesse. Saí de lá com muitos livros, de literatura, cultura popular, filosofia, comunicação, fotografia e ciência. Um dos livros que ganhei deles é Vozes de Tchernóbil, de que já falei aqui.

O que me deu vontade de pegar esse livro foi a paixão por Lost. Quando comecei a ver a série, já estava passando a quarta temporada na TV. Aluguei, baixei, peguei dvds emprestados e cheguei ao ponto em que a série estava, para poder acompanhar pela TV. Foi muito louco acompanhar tudo. Motivou muito tempo da minha vida - motiva até hoje, na verdade. Lost foi uma experiência muito bacana de transmídia, que é o que eu pesquiso. E tem muito material sobre Lost por aí. Um dos teóricos que eu pesquiso, o Carlos Scolari, escreveu Lostologia, que é um livro que quero ler há anos e não consigo encontrar em papel. Ok, posso comprar o e-book para Kindle, mas mesmo assim eu queria em papel.

O livro traz uma pesquisa longa dos três autores sobre as três primeiras temporadas de Lost. Eles trazem listas de episódios, de livros citados e inspiradores (aumento bruto na lista de livros que quero ler), de músicas (uma playlist muito legal), de séries de TV que também são utilizados como inspiração, de filmes que são usados como referência, de cultura pop citada, especialmente pelos personagens de Hurley e Sawyer.

Quando peguei o livro da pilha oferecida pelo orientador, fui muito guiada pela fome de Lost e menos por tempo pra ler. Mesmo que o tema seja caro pra minha pesquisa sobre transmídia, tempo não é uma coisa que sobra por aqui. Mas daí, um dia, resolvi ir pra BH e queria uma leitura leve, nada do que ando lendo academicamente, nada de filosofia, nada para estudar o que quer que fosse. Mas como a viagem seria curta, não teria tempo pra me dedicar aos muitos romances que preciso ler. Daí peguei o livro e... putz... devorei.

A edição é bem ruinzinha. A diagramação é péssima, o volume está cheio de erros de revisão, tanto de texto como de pesquisa. Mas, mesmo assim, é um alento pra quem gosta de Lost. E foi ótimo ler enquanto estou revendo a série, pela quinta vez, enquanto não faço nada (tipo de meia noite às 6h).

Quando estive em Curitiba, apresentando um trabalho num congresso, acabei comprando A filosofia de Lost, que quero ler em breve (sabe-se lá quando).

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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Livro: Sobre a escrita


Tinha esse livro há um tempão na estante. Desde que foi lançado em português. Mas deixei ele lá, sabe-se lá o motivo (deve ter sido o mestrado, esse sugador de energia das pessoas). O fato é que um dia desses, tirei da estante e li rapidão.

O livro é dividido em três partes. Na primeira, o autor conta sobre sua vida de uma forma muito divertida e bem humorada. Ele mostra como foi, desde cedo, capturado pela escrita. E traz uma série de coisas de sua vida que levaram a histórias, que depois viraram livros. Também conta o percurso penoso da busca por publicação. De como histórias foram deixadas de lado e tomaram outro rumo. Sobre o primeiro livro publicado, Carrie, a estranha, e como ele mudou sua vida. De como conhecei Tabby, sua esposa, e a vida dos três filhos, em meio aos muitos perrengues enfrentados. Fala também sobre o alcoolismo e tudo de ruim que trouxe para a sua vida pessoal e profissional.

Na segunda parte, chamada de Caixa de Ferramentas, King elenca uma série de qualidades que devem ser exercitadas por quem quer ser escritor. É engraçadíssima a sua defesa pelo não uso do advérbio. Não era algo com que eu me preocupava, mais depois do autor dizer que "a estrada para o inferno está pavimentada por advérbios", fiquei mais atenta, tanto nos meus textos quanto nos que leio. E preciso concordar com o Stephen: advérbio é muito feio!

Também fala sobre história, trama, texto, construção de personagens e mais um monte de coisas, como se fosse, realmente, uma caixa de ferramentas para autores, na terceira parte. É um guia pra ser lido, relido e consultado.

Não sou boa leitora do Stephen King. Só li O Iluminado, e não curti muito. Não é o tipo de livro que curto. Mas é preciso tirar o chapéu pro autor, porque ele publica muito e tem muita criatividade. Gostei muito deste Sobre a escrita, acho que é um bom guia para qualquer pessoa que quer escrever.
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terça-feira, 29 de agosto de 2017

Citações #218

De Man Repeller:


- Quais são suas competências?
Eu estava preparada para essa pergunta, porque meu pai tinha me avisado que eles a fariam.
- Word, Powerpoint, Excel... todo do Microsoft Office, na verdade.
Em 2007, essas competências levavam a um caminho chamado Contratado. Se eu tivesse divulgado minhas verdadeiras competências - Facebook e Net-a-Porter -, a reunião provavelmente teria acabado ali mesmo. Cinco anos mais tarde, talvez essas fossem as duas únicas competências importantes.  


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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Livro: Pequenas grandes mentiras



Quando Ana Paula me passou o livro, não fiquei lá muito entusiasmada. Estava #lendovidaedestino e caminhando devagar com a trama. Mas uma hora dessas pensei que uma leitura levinha ia ser bacana pra desanviar. Pensa bem se não parece um livro levinho... 400 páginas de romance água com açúcar...

Só que não.

Li o livro em dois dias. E foi uma porrada na cara. A autora foi muito feliz em fazer com que uma das personagens principais fosse bem leve (e meio louca, meio gente como a gente), com problemas comuns do dia a dia: um emprego de meio horário, uma filha adolescente, dois filhos ainda crianças. A entrada da filha caçula no jardim de infância. O contato com as outras mães, a "política da escola". Madeline é real demais, em especial no seu relacionamento com a filha mais velha e o ex-marido, com as mágoas e dores que o fim da relação deixou.

No dia da orientação dos novos alunos do jardim de infância, enquanto tenta "salvar a vida" de um grupo de jovens, ela se machuca e conhece Jane, nova no bairro, que levava o filho Ziggy para a mesma turma de Chloe, a caçula de Madeline. Há também a deslumbrante e rica Celeste, mãe dos gêmeos Max e Josh. Quando vão buscar os filhos na escola, Amabella ("não é Annabella, é um nome francês"), filha de Renata, reclama que foi agredida por um menino e, na confusão, a culpa cai em Ziggy. Renata se estressa e quer um pedido de desculpas, enquanto Jane tem certeza de que seu filho não machucaria a coleguinha.

Esse é o pano de fundo para uma investigação de assassinato, que acontece dentro da escola. Logo no primeiro capítulo sabemos que alguém morreu, mas não sabemos como nem quem matou. Só sabemos que a morte aconteceu no dia do Festival de Perguntas e Respostas da Escola, em que os pais deveriam ir fantasiados de Elvis e as mães de Aldrey. Alguns capítulos contam com depoimentos de pais de alunos do jardim de infância sobre as outras mães e pais, sobre as crianças, a professora, a diretora e sobre todas as situações decorrentes do bullying que Ziggy é acusado de praticar.

Porém, mais além, vamos encontrar uma situação de muita, mas muita violência. E, também, de como a violência se espalha, silenciosa, capilar, destruindo vidas e criando monstros.

Foi uma história que me tocou muito, por conta do meu histórico de vítima de violência doméstica. Vi minha vida passada em várias situações do livro, agarrada ao volume esperando ver se haveria um fim digno para aquela história. Sim, o fim é digno. Tem um lado bem romanceado, mas há o principal, lá nos últimos capítulos, sobre as mentiras que as vítimas de violência contam para se encaixar na sociedade. Só por isso, o livro valeu pra mim. Mas não é só isso. É preciso discutir abertamente essa questão.

Verei a série, sim, assim que for possível.
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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Citações #217

De Número Zero:


- Não é necessário inventar notícias - observei -, é só requentar.
- Como?
- As pessoas têm memória curta, Pensando por paradoxos: todos deveriam saber que Júlio César foi assassinado nos idos de março, mas essas ideias são confusas. Pega-se um livro inglês recente que faça uma revisão da história de César, depois basta um título de efeito, Sensacional descoberta dos historiadores de Cambridge. César foi mesmo assassinado nos idos de março, reconta-se tudo e tem-se um artigo delicioso.  

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Livro: Fahrenheit 451



Fahrenheit 451 é um daqueles livros que estava na minha pilha de leituras há anos. Vai saber o motivo de ter passado tanto tempo lá... Até coloquei ele na mala pra NY, mas ele permaneceu por lá. Quando desfiz a mala foi que pensei em adiantar a leitura. Foi rápido, li em um fim de semana.

A história é bem conhecida. Fahrenheit 451 é a temperatura do fogo para que o papel seja queimado. O autor cria uma distopia em que os livros são proibidos e os bombeiros existem não para combater o fogo - as casas são anti-chamas -, mas para criá-lo. A sirene do Corpo de Bombeiros soa sempre que alguém denuncia que há livros guardados em alguma casa. Assim, os profissionais do fogo vão até o local indicado para queimar todos esses objetos considerados inúteis e, mais que isso, perigosos. O personagem principal, Montag, é um bombeiro.

Há várias formas de entretenimento nessa distopia. Uma delas é a televisão com múltiplas telas, que é configurada para que os atores conversem com as pessoas. Assim, o conteúdo é direcionado para envolver a audiência. Mildred, esposa de Montag, é uma das donas de casa que fica completamente envolvida com essa e com outra forma de entretenimentos: fones de ouvido que tocam música incessantemente. Ela é capaz de ler os lábios do marido e conversar com ele sem retirar os fones. Ela dorme de fones. Talvez esse tipo de situação justifique o que acontece com Mildred logo no início do livro: ela toma muitos remédios para dormir e Montag a encontra quase morta.

O encontro de Montag com Clarice McClellan, a nova vizinha, muda a forma como o bombeiro vê a vida. A família de Clarice - e ela mesma - é considerada subversiva, e há uma grande vigilância sobre eles. Montag gosta da menina e do seu jeito meio petulante, meio sem filtro. A partir da presença e, posteriormente, da ausência de Clarice, Montag vai começar a questionar o mundo em que vive.

É curioso como o livro é uma declaração de amor aos livros, ao mesmo tempo em que foge um pouco das distopias da mesma época (como em Admirável mundo novo), ao ter um final com uma mensagem de esperança. É bonito o fim do livro, muito mesmo, mas me pareceu deslocado do que eu esperava da distopia. Mesmo assim, é um ótimo livro. Mais fácil de ler - talvez até por esse clima mais positivo - do que Admirável mundo novo.

Fahrenheit 451 virou filme, dirigido por François Truffaut em 1966. É um bom filme, a adaptação foi muito bem feita. Vi há muitos anos, mas estou querendo ver de novo.
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