domingo, 29 de abril de 2018

Livro: A morte de Ivan Ilitch



Comecei a ler A morte de Ivan Ilitch há alguns anos, neste mesmo arquivo de Kindle. Mas aí aconteceu algo de que não lembro e larguei o livro. Não foi porque não estava gostando. Pela data, provavelmente era por motivos de mestrado mesmo.

A morte de Ivan Ilitch é um livro bem curto do Tolstói. Mas a pequenez do volume não está, de modo algum, ligada à história. A trama é uma porrada. Começa com algumas pessoas num departamento público, em uma conversa com o jogo de cartas da noite, quando alguém lê no jornal o comunicado sobre a morte de Ivan Ilitch, um magistrado da mesma repartição. Há comoção, como sempre acontece quando ficamos sabendo da morte de uma pessoa que conhecemos - seja ela de nosso convívio, relações ou não -, mas logo a vida volta a correr. Um dos amigos de Ivan vai, a contragosto, à casa do morto, para prestar condolências e participar do serviço fúnebre.

A partir daí, a narrativa passa a ser sobre a vida de Ivan. Seu nascimento, sua vida familiar, suas escolhas profissionais, o casamento, os filhos. A sua ambição profissional permeia toda a história, passando, até mesmo, pela sua escolha ao desposar Prascóvia Fierodóvina (adooooro os nomes russos e sua lógica de filiação!). O casamento, que parecia ser um bálsamo, vira um inferno para os dois. Ela, muito possessiva. Ele, querendo viver em paz. Não há diálogo, não há mais amor. Mas, mesmo assim, há muitos filhos. E muitas perdas. Ficam apenas dois, um menino e uma menina. E Ivan passa a ter mais despesas, que o trabalho não pode bancar.

Em uma tentativa bem sucedida de mudar de trabalho, recebe um salário maior e vai viver em uma nova cidade. Ele mesmo escolhe onde a família vai morar e decora a casa nova. Ao colocar uma cortina, cai e bate de lado, sentido muita dor, mas sem se abalar com isso. O prazer do novo lar, a antecipação da cara de espanto de Prascóvia e dos filhos com a riqueza de suas escolhas decorativas, suplantam a dor. Quando a família vem, instaura-se uma era de alegrias.

Mas aquela queda... Ivan começa a sentir um incômodo, que se transforma em dor, que se transforma em sofrimento. E ele não acha que está sendo bem tratado pelos médicos, pela família, pelos amigos. Não acha que recebe a atenção que deveria. E aí, em suas lamentações, temos a construção de uma alma tão atormentada, tão fruto de uma classe privilegiada (aqui, seja russa ou não, é impressionante como Ivan Ilitch se encaixa nos privilégios do mundo capitalista...) que tudo o que o tira do centro do mundo faz a dor, o incômodo e o sofrimento piorarem grandemente.

A morte de Ivan Ilitch é daquele tipo de livro curto e simples que provoca explosões. Parece inofensivo, mas vai lá no fundo da alma e cutuca uns pontos que a gente nem sabia que existia... O livro foi publicado em 1886. Praticamente 20 anos depois do início da escrita de Guerra e Paz e dez anos depois de Ana Karenina. Estes últimos dois sofreram uma grande influência das leituras de Schopenhauer. Por obra do destino, estou cursando uma disciplina que trata dessa ligação entre o autor e o filósofo. Foram poucas aulas, mas foi possível ver vários temas tratados por Schopenhauer na figura de Ivan Ilitch.

E por isso, cumpro aqui mais uma categoria do Desafio Livrada!: 3 - Um livro com abordagem metafísica. A leitura original é A montanha mágica, que está em processo.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...