quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Livro: A praça do diamante



A categoria 10 do Desafio Livrada! contempla "um livro que se passa em um lugar sobre o qual você não sabe nada". Em um primeiro momento, A praça do Diamante é sobre a Espanha e eu sei algumas coisas sobre ela sim. Mas, de fato, a autora, Mercê Rodoreda, é catalã. É uma das pessoas que foi exilada da Catalunha e se posicionou como uma voz contra a dominação espanhola. O que eu sei sobre a Catalunha? Quase nada. Por isso, o livro entra na categoria 10.

Além disso, A praça do Diamante foi o livro de dezembro de 2017 da TAG, com curadoria da Carol Bensimon. E que livro lindo!

Natàlia é uma moça simples, que trabalha em uma confeitaria e está noiva de Pere, um cozinheiro. Em uma festa na praça do Diamante ela é convidada para dançar. Quem a chama é o Joaquim, ou Quimet, um jovem bastante impetuoso, que diz a ela que, dali a um ano, os dois estariam casados. Como Quimet a envolve, Natàlia desmancha o noivado com Pere, pede demissão do emprego e se casa com Quimet. Os dois vão morar em um apartamento pequeno e começam uma vida de casados com muitas particulares. Ele é marceneiro e adora fazer coisas diferentes, é caloroso e brincalhão. Ela tenta acompanhá-lo nas maluquices, até que é surpreendia por pombos. Quimet monta um pombal em casa e Natàlia, que ele chama de Colometa (ou pombinha, em catalão) quase enlouquece com os pássaros tomando conta de sua casa.

O ponto mais interessante do livro, pra mim, foi o retrata da Guerra Civil espanhola e o que aconteceu com os guerrilheiros comunistas. Quimet e seus amigos Cintet e Mateo estavam desse lado do front e sofreram consequências. Na altura da guerra, Colometa e Quimet já têm dois filhos, o Antoni e a Rita. Quimet sai de casa para seguir com os guerrilheiros e a esposa e os filhos passam por muitas dificuldades. A guerra acaba e traz mais mazelas para a família. Olha, foi duro atravessar essa parte. Uma das decisões da Colometa pra salvar a família é muito dolorosa. Terminei de ler chorando bastante.

O final também me emocionou muito. Colometa carregou as marcas da guerra por muito tempo em sua vida. Um período longo que a prejudicou muito. Mas ela pôde, enfim, se abrir para o novo mundo em que passou a viver. Ao fim do volume, a autora traz um posfácio em que fala sobre o amor no livro. E, sim, é um livro sobre o amor. Mesmo que pareça ser só sobre sofrimento. Colometa sofre muito, mas também ama. E a sua abertura para viver um amor bem acabadinho, mesmo com limitações, é tão linda! Dá para fazer um paralelo com a reestruturação da Catalunha após a guerra, com as feridas abertas e pulsando, tentando voltar "ao normal" sem conseguir. Não que as feridas tenham cicatrizado... mas é preciso seguir.

A princípio, a Colometa parece ser uma moça bobinha, que sabe pouco do mundo e que é levada por Quimet para onde ele quiser. Aos poucos, ela se mostra uma mulher forte, que não titubeia e vai atrás da felicidade dos filhos, que por eles é capaz de qualquer sacrifício. O Quimet, por sua vez, seria chamado hoje de "macho escroto", que quer a Colometa bem debaixo da asa dele. Ok, eram outros tempos. Porém, se ela não tomasse decisões, as rédeas do seu próprio destino, a família iria sucumbir mais rápido. Um viva à Colometa!

O que aprendi sobre a Catalunha com o livro: o outro lado da guerra civil espanhola (que eu já conhecia, em parte, em Por quem os sinos dobram, mas não com a caracterização geográfica), traços de uma cultura diferente da espanhola, os diminutivos para os nomes masculinos, que a dominação capitalista está aí pra vencer qualquer guerra, não importa realmente qual seja. Que a Catalunha ainda vai resistir para se separar da Espanha, com plebiscito ou não. Que a cultura de um povo é maior que o marco político-geográfico.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...