quarta-feira, 21 de junho de 2017

Livro: A garota na teia da aranha



O caso é grave. Por gostar muito-muito-muito da Trilogia Millennium, fique até empolgada quando vi que teria uma continuação. Já sabia que não seria a mesma coisa, visto que o Stieg Larsson estava morto. Mas até então, a notícia que tinha é que o autor novo tinha sido aprovado pela família do Larsson. Um indicativo bem pequeno de qualidade, eu sei. Mas, mesmo assim, fiquei tentada a continuar lendo. Meu primo João Batista me deu o livro (ele sempre me manda livros; eu amo!) e fui logo encaixando pra ler.

Daí que, né?, não foi fácil. A expectativa pra uma legítima história do Larsson era enorme. E o livro acabou sendo uma grande decepção. Talvez porque os nomes dos personagens tenham se mantido - era esse o objetivo, não? -, mas suas personalidades tenham se tornado difusas. Impossível reconhecer a Lisbeth da trilogia nesta história. Mikhael também não é o mesmo. O ambiente é outro, o clima é outro. Não dá pra aceitar essa história como parte da trilogia original. Talvez, se o autor levasse a mesma história, mas sem se apropriar dos personagens, até passava como um romancezinho fácil desses que prende o leitor por conta de um plot twist no fim de cada capítulo.

A história começa com Frans Balder, um sueco gênio da computação tendo roubado informações importantes de um bando de hackers que se traveste de empresa de segurança de dados. A NSA, agência de inteligência de dados estadunidense, está de olho nessa situação, mas não leva a sério o risco à vida do cientista. Este, por sua vez, tem um filho autista inteligentíssimo com números e capaz de desenhar com tanta perfeição que deixa todos de boca aberta. Acontece que, até então, ninguém sabia dessas duas habilidades da criança. Sim, isso é sério.

Essas características do garoto só surgem quando seu pai é brutalmente assassinado, na frente do filho, por um frio matador de aluguel. Que, é claro, pertence à tal organização criminosa. Movido sabe-se lá por qual motivo, o assassino poupa a criança, que é, então, levada como testemunha. Mas com seu autismo grave, não sabe fazer nada além de desenhar. O gênio sueco assassinado era amigo - uma amizade nunca esclarecida, por mais que o autor tente desenvolver essa questão - de Lisbeth Salander, a hacker que a gente ama. Ela, por sua vez, está às voltas com uma invasão nos computadores da NSA, quebrando a segurança e instalando um vírus espião. Mikhael, há tempos sem notícias de Lisbeth, sofre porque, mais uma vez, a revista Millennium está ameaçada de ser fechada. Algo que não condiz com o último livro da trilogia, veja bem.

Não se sabe quanto tempo se passou entre o terceiro volume, o último escrito pelo Larsson, e este, do David Lagercrantz. Porém, acredito que só uns dez anos de espaço entre uma história e outra poderiam colocar a revista Millennium em risco novamente. O autor justifica dizendo que foram péssimas decisões empresariais (mesmo depois de tudo o que o Mikhael e a Erika viveram nos últimos livros???) e pela perda de credibilidade do jornalista, a partir de uma campanha na internet orquestrada - veja bem - pelo executivo que comanda a empresa que comprou parte da revista. Não faz muito sentido, se formos pensar em como o Stieg Larsson construiu a Millennium.

Mas, vá lá... Mikhael é levado por uma fonte bem obscura a tentar uma entrevista com Frans Balder, buscando alavancar novamente sua carreira como jornalista. O cientista, então, marca com ele um encontro de madrugada. Quando Mikhael chega, Balder já está assassinado. Assim, o jornalista também entra na trama. No fim das contas, as ligações de Mikhael e Lisbeth com Balder são muito fracas para justificar a história. Nem vou comentar a ligação de Lisbeth com August, o filho autista de Balder. Idem para a aparição de Camilla, irmã de Lisbeth (e aqui, pelamor, precisava a personagem ser uma femme fatale? Não faz o menor sentido!!!)

Enfim, a história é até interessante. Mas seria mais se não tivesse qualquer ligação com a Trilogia Millennium. Não dá pra ser feliz vendo os personagens e o universo sendo distorcidos, ao mesmo tempo em que o autor tenta "imitar" o estilo do Larsson.

Sobre a Trilogia Millennium, escrevi:
Os homens que não amavam as mulheres
A menina que brincava com fogo
A rainha do castelo de ar
A garota com a tatuagem de dragão e a filosofia: tudo é fogo
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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...