quarta-feira, 31 de maio de 2017

Livro: Vozes de Tchernóbil - a história oral do desastre nuclear



Quando o Nobel de 2015 anunciou Svetlana Aleksiévitch como vencedora, fiquei querendo conhecer a sua obra. Uma mulher, uma jornalista, uma história sobre a União Soviética. Meu conhecimento sobre Tchernóbil era nulo, só sabia que rolou um desastre nuclear e que, em seguida, teve um vazamento de Césio 137 em Goiânia. Lembro até da musiquinha: "eu amo Goiânia, Goiânia me ama...".

Fiquei com vontade de ler ao menos três livros da autora. Esse As vozes de Tchernóbil era um deles. Dei de presente para uma amiga, mas não comprei pra mim. Durante a Semana Santa deste ano, ganhei do Marcelo e da Debora, o casal de professores que tem me incentivado muito na vida acadêmica; ele, meu orientador, ela, participante das minhas bancas e sempre me botando pra pensar. Comecei a ler e foi uma porrada. Não tem outra palavra.

A autora não escreve. Ela transcreve a fala de diversos personagens, anônimos ou não, que viveram Tchernóbil de alguma forma. As esposas dos liquidadores, os homens que foram enviados para tampar o buraco no reator e que receberam cargas altíssimas de radiação; as crianças que não entendiam o que estava acontecendo; os militares, preparados para uma guerra, mas não para um acidente nuclear. Os moradores das aldeias, que não compreendiam nada e até hoje choram por terem sido forçados a deixar a terra onde nasceram e viveram.

Chorei em diversos momentos. A voz ficava embargada. O aperto na garganta era severo. Deixei o livro de lado. Voltei a ele. Impossível não terminar, impossível ler com sofreguidão, sem ter repulsa pela história, pela humanidade, pelo governo. A dor do povo doeu em mim. Mas sei que a minha empatia é só uma tentativa minúscula e inexpressiva perto do que viveram.

Já tenho o segundo livro dela pra ler. E este vai viajar pro Piauí, pra minha amiga Ju. Pra alguém que sei que vai viver a experiência e vai espalhar luta por onde passar.

Quando puderem, leiam. É sofrido, mas é necessário.

Já falei algumas vezes como preciso de literatura e de cinema que me tirem do conforto, que sacudam a minha vida. Os textos estão aqui e aqui. Vozes de Tchernóbil veio assim, atropelando tudo, e trazendo pra mim o que eu mais gosto em um livro: abrir o horizonte.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...