quarta-feira, 15 de março de 2017

Livro: História de quem foge e de quem fica



Sim, vai ter spoiler, de novo!

Ainda não consegui me decidir se este volume é o que mais gosto ou o que menos gosto.

O que me encanta nele é o desenvolvimento da Lenú sem Lina por perto. Dela construindo a personalidade que quer ter, com muita leitura e engajamento, sendo mais independente e liberada. Também tem o Pietro Airota, que eu considero um personagem muito interessante, mas que o desprezo da Lenú por ele me deixou com muita raiva. Nino Sarratore é outro que me deixou fervilhando de raiva, e eu só fazia chamar a Lenú de burra o tempo todo, especialmente do meio para o final. Senti muita vontade de apertar o pescocinho da personagem.

Enfim, o volume começa com Elena às voltas com o lançamento do seu livro, uma história de amor e de liberdade de uma mocinha como ela. Ela escreveu despretensiosamente, para dar um presente a Pietro, que entregou o caderno a Adele, sua mãe. Amiga de editores, ela indica o livro para publicação e Elena, finalmente, realiza seu sonho de infância. O livro é bem recebido por público e crítica, mas a cena de sexo que ela descreve causa um fuzuê entre seus vizinhos de Nápoles. A autora é confrontada na rua como se tivesse escrito uma obra erótica e pervertida, que deveria ser proibida. O fato é que quase ninguém do subúrbio leu a história e a mãe de Elena fica dividida entre o orgulho pela filha e os fuxicos da vizinhança. Também não se conforma com a decisão de Elena em se casar e ir embora de Nápoles em definitivo. Seu novo lar será em Florença, em um bom apartamento e com boas perspectivas de conseguir se firmar como escritora.

Enquanto isso, Lina está às voltas com a sua nova vida, com Enzo Scanno e Rino. Os dois vão morar em um distrito industrial de Nápoles, Enzo trabalhando em uma fábrica e mantendo a casa, enquanto Lina tenta juntar os cacos e fazer a sua parte. Após um período, ela consegue um emprego na fábrica de embutidos de Bruno Soccavo, mas sua vida não melhora. As condições de trabalho são terríveis e terminam sendo uma desculpa para a aproximação de Pasquale Peluzzo e Nadia Galiani. Lina sofre tanto com a sua situação no trabalho como com o uso político que tentam fazer dela. Também quer ser uma pessoa melhor e corresponder o amor de Enzo, mas não consegue. Porém, ela se dedica a ele, em especial ajudando-o a estudar à noite, por correspondência. O talento de Enzo para a matemática é conhecido desde que eram crianças, mas ele não pôde continuar os estudos para ajudar os pais a vender verduras. Conseguiu estudar por conta própria e Lina se dedica a fazer com que ele conclua os cursos de formação em informática.

Durante sua nova vida, Elena se solta. Porém, logo fica grávida, algo que não queria. Para ser diferente de Lina, que não gostou de ficar grávida, ela se mostra feliz e pensa ser uma mãe dedicada.

Tenho a impressão de que Enzo é o único personagem que não passa pelo olhar ácido da narradora. Não me lembro de ter lido críticas a ele. Apenas respeito ao seu jeito reservado de ser e a sua devoção silenciosa a Lina. Não senti até mesmo que Lenú sentisse inveja ou ciúme por conta de Enzo. Posso estar enganada, mas é o que me parece. Antonio também é um personagem que merece menos farpas, mas ainda assim não é tão bem mostrado como Enzo.

Por outro lado, todos os personagens que cercam Lenú recebem duras críticas. Nenhum deles é positivado. Mesmo que momentaneamente ela nos deixe ver algo de bom em algum deles, logo em seguida vem o veneno. Ninguém se salva. Até mesmo a família de Pietro, que, no início era idolatrada por ela, começa a receber a saraivada de críticas habitual.

Outra impressão que tenho é que o objetivo da autora era mesmo deixar o leitor inquieto. Perceber as nuances de Lenú não basta: é preciso observar todas as decisões erradas que a narradora vai tomar, sempre com seu egoísmo pulando em nossa frente. Talvez venha disso a minha dificuldade em eleger este volume como o melhor. Porque Lenú me enraiveceu profundamente, de várias formas diferentes. Em especial no que diz respeito a Pietro Airota e Nino Sarratore. Foi muito difícil segurar a raiva e e a vontade de jogar o livro longe, bem longe.

A tetralogia segue com essa característica marcante de emendar uma história em outra, de forma que não é fácil largar. Quanto terminei esse volume, estava tão desesperada para continuar a ler que comprei o livro em inglês, para o Kindle. E foi ótimo. Além da leitura em inglês, que aumenta o vocabulário e a percepção das construções gramaticais, acho que não daria conta de esperar o lançamento do último volume em português. Dizem que sai agora em maio...

Sobre a Tetralogia Napolitana
Sobre A amiga genial
Sobre História do novo sobrenome

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...