quarta-feira, 1 de março de 2017

Livro: A amiga genial


A tetralogia napolitana de Elena Ferrante começa com Elena Greco recebendo um telefonema de Rino, filho de sua amiga Rafaella Cerullo. Ele procura a mãe, que desapareceu. Acredita que ela poderia estar com Lenú, como Elena é chamada. Lina (apelido de infância de Rafaella - Lenú só a chama de Lila). As duas se conhecem desde os seis anos de idade, quando começaram a se aproximar, brincando, no pátio dos prédios onde moram.

Lenú já avisa desde as primeiras páginas que tem uma relação ambígua com Lina. Se a amiga desapareceu sem deixar vestígio, ela vai na direção contrária e começa a registrar toda lembrança que possui da vida de Lina. Assim, começa o livro com uma história que marca para sempre a vida das duas meninas: Lina joga a boneca de Lenú pela grade que permite a respiração do porão; Lenú faz o mesmo com a boneca de Lina. As duas meninas decidem desbravar o porão para resgatar as bonecas, mas não as encontram. Concluem, então, que Dom Achille, o ogro da vizinhança, roubou os brinquedos. Lina, corajosa, arrasta Lenú escada acima para confrontar o suposto ladrão.

As duas meninas crescem juntas, disputando espaço com os meninos do bairro, tanto na vizinhança quanto na escola. Vivem na periferia de Nápolis no pós-guerra. Disputam o tempo todo para serem a melhor da turma, aos olhos da professora e também do diretor, que promove competições entre alunos de séries diferentes. As duas são brilhantes, mas Lina demonstra ter uma inteligência fora do comum.

Lenú é uma personagem cheia de nuances. Seu olhar pela vizinhança, pescando aqui e ali a violência, a miséria, e a opressão feminina chegam a ser bem sutis nesse primeiro volume. Como uma criança que está mais preocupada em fazer bonito, tanto para os pais quanto para os colegas e professores, ela parece estar sempre focada em Lina: em se igualar a ela, sem ser melhor do que ela. A primeira sensação que vem à cabeça é inveja. Lenú é invejosa sim, e não faz muita questão de esconder isso. Mesmo que seja mais privilegiada que a amiga - seu pai trabalha na prefeitura, tem condições de dar a ela uma boa boneca, paga seus estudos no ensino médio e no Liceu -, ela sempre acha que Lina se dá melhor. Se, quando crianças, ela é mais bonita que a amiga e vive recebendo propostas de namoro, quando viram adolescentes, Lina se transforma na mulher mais bonita da vizinhança, com todos os olhares se voltando para ela.

E é a Lina combativa, forte, assertiva, independente e muito linda que vai colocar Lenú para andar. Mesmo que não estejam mais na mesma escola, que não estudem mais lado a lado, é Lina quem faz com que Elena se esforce por continuar sendo a melhor da classe. Lenú tem consciência disso, e se aproveita para buscar a energia de Lina quando precisa se sobressair. Lina, por sua vez, também busca algo de Lenú: sua aprovação, sua subserviência.

E a "amiga genial" do título? Pode ser tanto Lenú quanto Lina, dependendo da vontade do leitor de aceitar o que a narradora conta, nos momentos finais do volume. Pra mim, genial mesmo é a autora.

Ninguém nessa história é inocente. Os olhos da narradora são cruéis com todos os personagens. O pai é visto como um funcionário chegado em propinas; a mãe, violenta e destemperada. Os irmãos de Lenú são citados de passagem. Os pais de Lina também não fogem da violência (o pai, em especial). E Rino, o irmão dela, é um bobo que só melhora de vida por conta da irmã, mas não sabe dar valor a ela. A vizinhança também é cheia de nuances. Dom Achille e seus filhos, respeitados por serem os mais ricos, até que os Solara passam a ganhar muito dinheiro, possivelmente com a Camorra. Os filhos do carpinteiro, do verdureiro, da viúva louca estão todos por ali, compondo um cenário rico.

As duas meninas crescem, unidas e desunidas, provocando-se e salvando-se, atando e desatando os nós da amizade. É uma história bonita e, principalmente, mais real do que o que costumamos ver por aí. A escrita de Elena Ferrante é bem crua e não facilita para ninguém. Enquanto Lenú detona tudo e todos ao seu redor, a autora também faz questão de deixar claro que a narradora é tão humana quanto os outros. Inveja é apenas uma das características de Lenú - durante o terceiro livro, eu só fazia xingar a protagonista -, tão recheada de emoções e ambiguidades.

Enfim, Elena Ferrante foi uma descoberta deliciosa. Seus livros estão sendo lançados aos poucos no Brasil. Além da tetralogia, há outras duas histórias (Dias de abandono e A filha perdida) publicadas em português e a promessa de mais duas, além da quarta parte da tetralogia napolitana, a serem publicados este ano. Um deles, que é de entrevistas da autora, estou louca pra ler.

Em uma semana, vamos ao segundo livro da tetralogia.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...