terça-feira, 29 de novembro de 2016

Citações #180

De A elegância do ouriço:


Afinal de contas, estávamos na Angelina: todas aquelas pessoas bem-vestidas, comendo cheias de nove-horas em confeitarias caríssimas, e que só estavam lá para... bem, pelo significado do lugar, pelo fato de pertencerem a um certo mundo, com suas crenças, seus códigos, seus projetos, sua história etc. É simbólico, sabem. Quando tomamos chá na Angelina, estamos na França, num mundo rico, hierarquizado, racional, cartesiano, civilizado. Como o pequeno Théo vai fazer? Passou os primeiros meses de vida numa aldeia de pescadores da Tailândia, num mundo oriental, dominado por valores e emoções próprias, em que o pertencimento simbólico talvez se expresse na festa da aldeia, quando se homenageia o deus da Chuva, quando as crianças são banhadas em crenças mágicas etc. E ei-lo na França, em Paris, na Angelina, imerso sem transição numa cultura diferente e numa posição que mudou de cabo a rabo: da Ásia à Europa, do mundo dos pobres ao mundo dos ricos.
Então, de repente pensei: Théo talvez tenha vontade de queimar carros, mais tarde. Porque é um gesto de cólera e frustração, e talvez a maior cólera e a maior frustração não seja o desemprego, não seja a miséria, não seja a ausência de futuro: seja a sensação de não ter cultura, porque a pessoa está dilacerada entre culturas, símbolos incompatíveis. Como existir se não sabemos onde estamos? 


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...