quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A tal caixa acrílica do aeroporto

Todo mundo que viaja de avião sabe que tem uma série de coisas que não se pode levar na bagagem. De um tempo pra cá, a bagagem de mão ganhou uma série de restrições. Se bem me lembro, foi depois do 11 de setembro de 2001, e o objetivo é evitar que projetos de atentados sejam postos em prática. Tem umas coisas bem razoáveis, como não levar objetos que podem explodir. Aliás, um dos celulares da Samsung está proibido de ser levado em bagagem de mão e na despachada porque anda explodindo por aí. Outras coisas são meio misteriosas, como a proibição de levar mais de 100 ml de qualquer líquido. Vale para shampoos e correlatos e, em alguns casos, até para itens mais pastosos de maquiagem, como batons. Alguns itens devem ir apenas nas bagagens de mão, como notebooks, tablets e joias.

Enfim, é importante saber direitinho o que é e o que não é aceito como bagagem, despachada ou de mão, para cara tipo de voo, seja doméstico ou internacional, e para cada companhia aérea - sim, as regras variam de uma a outra.

Daí chegamos na caixa acrílica que fica na ponta de cada esteira de raio-x das salas de embarque. Cada uma delas contém um número variável de objetos que, à primeira vista, são bem estranhos para terem sido levados como bagagem de mão. Sempre achei que as pessoas eram bastante esclarecidas sobre o que poderiam ou não levar. E que aquelas caixas ali eram recheadas com objetos estranhos vindos de outros lugares, como algum arquivo de "achados e perdidos" bem perdidos. Taí uma coisa que valeria a pena conhecer: o que é feito com objetos achados e perdidos que não são reclamados. Mas isso é assunto pra outro dia.

Fala sério: quem anda com canivete, faca, facão, isqueiros variados, aerosóis variados, produtos químicos malucos e suspeitos, cortadores de unha e tesourinha na bagagem de mão, sendo que são proibidos? Qual o sentido? Tentar passar com eles pelo raio-x sem ser percebido? Sempre me perguntei isso. Até que entendi marromenos como funciona. Foi assim...

Estava eu indo pra São Paulo, para apresentar um trabalho na Faculdade Cásper Líbero. Depois conto como foi, porque foi mara! Daí, como íamos ficar pouco tempo, Leo e eu decidimos só levar bagagem de mão. Uma mochila pra cada um com as roupas pros dois dias que ficaríamos lá era mais do que suficiente. A minha estava bem pesada, porque ia o tablet - e o meu é jurássico, pesa como se não houvesse amanhã. Daí fizemos o check-in ainda em Ouro Preto e tomamos o rumo de Confins - que é lá nos confins do universo mesmo, o trocadilho faz todo sentido.

Entramos na sala de embarque, que estava super vazia. Muito estranho para uma manhã comum. Fomos direto pras esteiras, Leo pra uma ao lado da minha.

Pausa pra dizer que eu sempre caio nas revistas aleatórias. Sempre! Então já vou preparada pra abrir bolsa e ser revistada. Para facilitar, tenho tipo um uniforme de voo. Ele é composto por sapatilha, calça legging e camiseta. Aí, passo na esteira do raio-x apenas a bolsa e outra bagagem de mão e o relógio. Como a legging não tem bolsos, moedas vão para a bolsa e não há risco do raio-x para pessoas apitar. Facilita muito e muito mesmo a vida.

Daí, tô lá na entrada da esteira. Tirei a bolsa, o relógio e mochila e coloquei nas bandejas. A moça da ponta da esteira me perguntou se havia um notebook em minha bagagem. "Tem um tablet", eu disse, e perguntei se ela queria que ele fosse retirado. Ela disse que não precisava e lá foi minha bagagem pro raio-x, enquanto eu passei pelo portal mágico da entrada nas salas de embarque, já pensando que me chamariam pra revista aleatória, como sempre. Fiquei esperando minha bagagem chegar.

Daí o operador do raio-x arregalou os olhos de um jeito meio suspeito. Já perguntei pra ele o que tinha acontecido.


Operador do raio-x: A senhora tem um multifuncional em sua bagagem?

Eu: Tem um tablet.

Operador do raio-x: Nenhum multifuncional?

Eu: Não sei o que é isso. Você quer abrir pra ver?

Operador do raio-x: Multifuncional. Tipo um canivete. Vamos ter que abrir sim.

Eu: Ah, não, moço. Não tem canivete não, pode abrir.

Operador do raio-x: Está até perto do tablet.

Eu: Moço, tem certeza? Só tem roupa, livro e tablet aí. Vamos abrir.


Daí, abro a parte da mochila onde estava o tablet. A mochila é cheia de subpartes, muito útil pra quem é bagunceiro. Gosto dela especialmente porque tem espaço para colocar garrafinha de água, que me ajuda muitão nos deslocamentos. Tem também uma parte para colocar lápis e canetas. Foi nessa parte que coloquei o tablet.

Abri o zíper. Puxei o tablet. Num dos locais para colocar lápis e canetas estava, reluzente, brilhando e com setas apontando pra ele, um canivete. Do Leo. Que estava na outra ponta da esteira, me esperando. Olhei pra ele surpresa, enquanto ele ria.

Daí o operador do raio-x pegou o canivete e me disse que havia um padrão internacional de tamanho de lâminas. Se o "meu" tivesse dentro do padrão, era só levar. Se não, teríamos uma coisa a resolver. Ele mediu as lâminas uma por uma. Uma delas era maior que o padrão.

Enquanto ele media, Leo se justificava pra mim. Uns meses antes, tinha ido em uma excursão ao Pico do Itacolomi, com a minha mochila. Nela, tinha colocado várias coisas, inclusive o canivete. Segundo ele, que viu o filme 127 horas, vai que precisasse cortar um braço, né? Quando voltou, tirou tudo da mochila, menos o canivete da discórdia.

O moço do raio-x já estava rindo à vera. Tanto da cara do Leo e da história que ele contou, quanto da minha cara de pastel, por ser pega com uma coisa tão bizarra na mochila. As alternativas que ele nos deu eram: ou vocês voltam pro saguão e despacham o canivete - imagina só isso!!! - ou ele seria descartado. Naquelas caixas de acrílico do aeroporto. Aquelas mesmo que sempre me intrigaram pelo seu conteúdo.

Quem, afinal, leva aquele tipo de objetos pro aeroporto, minha gente? Resposta: eu mesma.

Lembro de que, quando pequena, minha mãe me dizia pra tomar cuidado com a minha bagagem, porque pessoas estranhas poderiam colocar coisas estranhas nela.

Nunca me avisaram sobre a possibilidade da pessoa com quem você divide a vida colocar coisas estranhas na minha bagagem...

Leo, seu fanfarrão!!!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...