quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Livro: Minha metade silenciosa



Pra começar: não sou o público desse livro. Ele é destinado a adolescentes, e dificilmente eu leria sem uma boa indicação. Foi o que aconteceu. A Liliane Prata, que é escritora mineira, indicou o livro em seu canal no Youtube. Aliás, super recomendo o canal, porque sempre tem assuntos bacanas e pontos de vista enriquecedores.

Daí que ela comentou sobre o livro e me deu muita vontade de ler. Especialmente porque ele fala sobre violência familiar. E, né?, vivi muito isso pra ter interesse em ler e me reconhecer.

A história é contada por Stark, um garoto que odeia o seu nome. Prefere ser chamado de Palito (só pra esclarecer: Stark é algo como fortaleza. O apelido é Stick, o que dá uma sonoridade interessante no inglês original). Ele tem um irmão mais velho, Bosten, que é um ombro amigo e presença constante. Palito não tem a orelha direita. Por isso, é caladão, introspectivo e cheio de problemas de relacionamento. Sofre bulying na escola e só tem uma amiga, Emily, com quem ele conversa na escola e fora dela.

Mas o principal problema que Palito e Bosten enfrentam são os pais. Um casal abusador, que quer educar os filhos apenas à base de porrada. A violência é tanta que a casa tem um quarto apenas para castigar os garotos. Palito conta que quase todo dia um dos dois é obrigado a ficar por lá. O quarto tem regras - aliás, toda a casa tem muitas regras - como a obrigação de ficar sem roupa e sem acesso a um banheiro (há um balde para as necessidades básicas); a porta trancada pelo lado de fora; não há janelas, como em uma solitária; quem determina o tempo que o "prisioneiro" passa por lá são os pais; antes de entrar no quarto rola muita pancada, dessas de deixar marcas horríveis no corpo; antes de entrar no quarto, o filho deve se mostrar educado e desejar "boa noite" aos pais.

Sério, já no começo do livro eu queria vomitar. Pela familiaridade, sim. Pela forma como o autor, Andrew Smith, relata a violência crua dos pais de Bosten e Palito. O autor trabalhou por anos com adolescentes em situação de risco, e foram as histórias de seus alunos que o inspiraram a escrever o livro. Bosten tem 16 anos, Palito tem 13. Desenvolveram códigos só deles para conversar sem que os pais soubessem de suas intenções. E nem são intenções ruins: eles apenas querem viver a adolescência, sair com os amigos, namorar.

A história narra os momentos que levaram a uma explosão dos dois meninos, a revolta contra a violência, a incapacidade de fugir dela, permeada pela necessidade de escapulir. É um livro denso, forte, emocionante. Chorei em vários momentos, levada pelo terror dos meninos, pelo desespero, pela desesperança.

Repito: não sou o público alvo do livro, mas me vi em cada linha.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...