quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Livro: Guga, um brasileiro


Eu jamais compraria um livro sobre o Guga. Não por ser sobre ele, porque até acho o Guga legal. Não por ser biografia, apesar de já ter lido muitas, principalmente na adolescência. É porque tenho preguicinha de biografias de pessoas pouco mais velhas do que eu. Ok que o cara é um gênio do tênis e realizou muito pelo esporte. Mas, sei lá... preconceito mesmo com esse tipo de livro.

Mas daí vieram as olimpíadas 2016, no Rio, e o Guga foi comentarista da Globo. Não vi ele comentando nada, porque vi pouco das olimpíadas, e o que vi mais foi por streaming. Da Globo mesmo, só lembro das narrações desastrosas do Alex Escobar para o handball brasileiro. Mas o Guga fez sucesso e começou a ser chamado de "labrador humano". E o Carlos, que tem com a Renata um blog muito bacana sobre livros, leu a biografia do Guga e fez um texto delicioso. A vontade de ler o volume veio logo. E o texto fluiu rapidinho, o que é ótimo, em se tratando de falta-de-tempo-devido-ao-mestrado.

O livro é narrado em primeira pessoa, e eu esqueci o nome do jornalista que assina, apenas, como "escutador" - para usar o termo da lavra de Eliane Brum - e organizador do material. O texto começa com o tenista em Roland Garros, durante as disputas que fizeram dele campeão em 1997. Nessa época, eu era estudante do primeiro ano de jornalismo e tinha tempo livre para ficar na TV quando quisesse, acompanhado todos os canais de esporte da recém-adquirida tv a cabo da casa dos meus pais. Foi no ano anterior que descobri o tênis e comecei a acompanhar a Copa Davis e as trajetórias do Guga e do Fernando Meligeni, meu preferido. Gostava do jogo bonito do Guga, mas sempre preferi a garra do Meligeni, que se jogava em todas as bolas. Reconheço que era jogo pra torcida, mas era emocionante. Daí que logo já estava eu acompanhado Roland Garros e vendo o Guga vencer uma partida, mais uma, mais outra, até a final.

Depois desse primeiro capítulo, que narra uma das partidas do torneio, a história vai para a formação familiar do atleta e vem, quase linearmente contando como ele nasceu, cresceu, ingressou no tênis. O esforço para dizer que o atleta foi formado com muito sacrifício da família é um tanto quanto cansativo. Porque qualquer pessoa que conheça um pouco sobre esporte sabe que o tênis é elitista. Mesmo que a família do Guga não fosse rica, estava bem longe de ser pobre. Mesmo que a mãe e o irmão mais velho tenham se esforçado com afinco a fazer com que ele pudesse se dedicar exclusivamente ao tênis, com a mãe batalhando patrocínios em vários espaços, levando muitos "nãos", a história do tenista é bem mais favorável que a da maioria dos brasileiros. Enfim... foi chata essa repetição ao longo do texto.

Outra coisa bem chatinha é que, a cada jogo, é falado que aquele era "o melhor tênis", "o melhor jogo" do Guga. Ok que cada jogo é único, que o atleta estava em ascensão, escrevendo uma história incrível do esporte. Mas o autor poderia ter amenizado a batida na mesma tecla... Acredito que se essas partes fossem cortadas, a história ficaria mais saborosa.

Não há como negar que é bem bacana ver como o Guga foi virando aquele atleta bem largadão, bem cheio de vida e de alegria, que encantou todo mundo em 1997. É bom saber que o caminho não foi só de flores. Que teve muita luta, muito aperto, muitas lágrimas; pouco deslumbramento com o mundo de glamour do tênis. As histórias dos bastidores, do macarrão de sempre no pequeno hotel de Paris, quando Guga e Larri Passos, seu treinador, iam para Roland Garros, foram bem mais interessantes que as posteriores, quando ele já estava entre os dez melhores tenistas do mundo.

A história da lesão no quadril é bem tensa, ainda mais porque ele toca no ponto do massacre que a mídia provoca em quem é colocado no posto de "número 1". A mídia cria, a mídia cobra absurdamente por resultados, a mídia derruba. A mídia cobrou muito do Guga, mas - talvez por seu carisma enorme - não tenha exatamente conseguido derrubá-lo. Ele deixou de jogar porque foi vencido pela lesão. Se foi difícil pra gente, que só via jogo pela TV, aceitar isso, imagina pra ele...

Resumindo: um livro bem bacaninha pra dar saudade do tempo em que era óóótemo ficar em casa de bobeira vendo esporte na TV. Lido em dois dias, porque flui bem, porque o personagem é legal. Mas tá bem longe de ser um livro recomendável. Por outro lado, quem é do esporte vai curtir bastante. Por isso, o Leandro vai ganhar o meu exemplar logo!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...