quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Livro: Admirável mundo novo


Não lembro exatamente o ano, mas acredito que eu tinha uns 16 ou 17 anos quando li Admirável mundo novo pela primeira vez. Era uma edição da Abril, com capa dura e acabamento dourado na borda das páginas, muito bonita. Emprestei, há uns anos, pra uma pessoa, que não me devolveu até hoje, e eu tô com vergonha de cobrar. Daí, quando rolou o Clube de Leitura de agosto, com esse livro, acabei lendo por esse volume da editora Globo de Bolso. E, olha, tem um prefácio maravilhoso, escrito pelo autor, depois que o livro foi publicado e gerou muitas polêmicas. Ele fala dos erros e acertos e diz que preferiu não modificar o livro. Achei muito bacana, mas penso que o texto ficaria melhor no final, em um posfácio. Enfim... como eu já tinha lido o livro, o prefácio fez sentido. Para quem nunca lei, acho que deve ter sido incompreensível e, talvez, desmotivador. Mas vamos ao livro.

Admirável mundo novo se passa em um futuro distópico, em que a humanidade evoluiu buscando o equilíbrio, de modo que as pessoas ficassem sempre felizes. Para isso, a sociedade foi dividida em castas, cada uma delas nomeada como uma letra grega e destinada a um tipo específico de trabalho. Os alfas estão no topo da pirâmide social. Os betas vêm logo atrás, e também os gamas, os deltas, até terminar nos ípsilons-aleijões, que fazem os piores trabalhos da humanidade. Mas só a separação em castas não basta: é preciso que cada casta ame o seu trabalho e tenha horror a ser de outra "turma", a fazer de outro trabalho. Como se faz isso? Com hipnopédia. As crianças são condicionadas desde o nascimento a amar serem da classe que são, com a repetição de frases gravadas enquanto dormem. Tudo foi estudado para saber quantas vezes cada frase precisa ser repetida, a fim de se entranhar na personalidade da pessoa. Essa "coisa" faz com que as características que devam ser ressaltadas sejam as de grupo, não as de personalidade. Não há personalidade nessa sociedade, não deve haver. Qualquer característica de personalidade que nasça, por algum tipo de erro, é rechaçada.

Outras três coisas importantes:

1) Deus não existe. A sociedade cultua apenas a Ford, o inventor da produção seriada. Os anos são contados como a.F. (antes de Ford) e d.F. (depois de Ford). As cruzes do cristianismo tiveram suas pontas cortadas, para que ficasse como um grande T, o sinal de Ford. Mas Ford não é cultuado como são os deuses; apenas como uma pessoa que fez tão bem para a sociedade que merece ser reverenciada. Não é como os deuses que a sociedade atual presta culto. Não há cerimônias ou fé.

2) não há concepção. O sexo é liberado e incentivado. A máxima é "cada um é de todo mundo". A monogamia é desaconselhada e vista como uma aberração. "Mãe" é um palavrão sem tamanho. As mulheres têm seus óvulos retirados e eles são fecundados in vitro. Por um processo chamado Bokanovskização, os óvulos fecundados são multiplicados, até 188 vezes. Óvulos fecundados que não passam por esse processo são os alfa e os beta. Os outros, passam por esse processo e são gerados um número X de gêmeos, que vão assumir as mesmas funções. Quanto mais gêmeos idênticos de um mesmo óvulo fecundado, mais baixa a casta. Há uma passagem no livro em um hospital, em que dois grupos bokanovisi são os funcionários: um grupo de gêmeos masculino e um grupo de gêmeos femininos. Os processos de fecundação também interferem no condicionamento dos humanos. Produtos químicos são adicionados no processo de "geração" para que cada grupo de pessoas tenha determinada característica. Os mais baixos servem para esta ou aquela função; há os que só se sintam bem quando ficam de cabeça pra baixo, para executar a tarefa Y. Todas as crianças nascem de um bocal e, a partir daí, são cuidadas de acordo com a função que vão exercer na sociedade, ouvindo a hipnopédia e aprendendo a ser parte daquele grupo destinado.

3) Quando algo vai mal, chateia ou aborrece alguém, há o Soma. Um remedinho que deve ser tomado com parcimônia, mas que faz que com todos vejam o lado positivo da vida. Todo mundo tem o seu Soma. Alguns, como os operários e pessoas de classe inferiores, recebem sua dose de Soma ao fim da jornada diária, e vão para casa felizes. Já os alfas e betas controlam sozinhos a quantidade de Soma que ingerem, nunca passando de dois gramas por dia. O Soma é o controle adicional para manter tudo em ordem, tudo em equilíbrio.

É nessa sociedade, em Londres, que mora Bernard Marx, um alfa que pode ter passado por um processo diferente, já que é mais baixo que os outros da sua classe e mais tímido também. Ele quer sair com Lenina, uma jovem alfa muito desejada, mas tem receio de chegar até ela e convidá-la para sair, porque não quer apenas uma noite - mas, ao mesmo tempo, também não quer ser monogâmico, porque isso é absurdo. Bernard é um tanto rebelde e passa alguns dias sem tomar Soma, para se sentir livre. Ele tem um amigo que é tão desviante quanto ele, mas mais discreto. Com esse amigo, Bernard consegue falar sobre o que o atordoa. E Lenina é tema presente. Mas Lenina é uma alfa como deve ser: trabalha, mas vive passeando, cada hora com um acompanhante diferente, tomando Soma e se divertindo. Bernard finalmente convida Lenina para passar uma semana com ele, na América, no Novo México. Lá há uma espécie de zoológico, uma reserva especial onde vivem selvagens: eles vivem em grupo, são monogâmicos, cultual deuses e - horror dos horrores - têm filhos. Bernard está empolgado para conhecer esse mundo; Lenina está apreensiva.

É lá, na reserva dos selvagens, que algo acontece e põe em cheque as convicções de Bernard, a posição de Lenina, a formação da sociedade.

O livro é uma porrada, uma cacetada forte em quem acredita na sociedade tecnológica. É assustador pensar que o que o Huxley temia quase aconteceu, na Europa no século XX, e pode acontecer novamente. É assustador pensar na guinada à direita que anda rolando no mundo todo, neste momento. Por isso, Admirável mundo novo pode ser considerado um clássico: sua história, publicada pela primeira vez em 1932, é tão atual hoje quanto era na época. Aliás, é um livro para ser relido (vale quebrar a minha regra de reler o mínimo possível, porque este aqui merece).

_______________
Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...