quinta-feira, 21 de julho de 2016

O livro da família



Em 1990, Tia Nazinha, irmã da vovó, decidiu reunir as informações da família em um único lugar e, assim, publicar um livro. Ela sempre foi a agregadora da família, sempre promovendo as festas que reuniam todos - ou quase todos, porque somos muitos - nos aniversários dos irmãos e em algumas datas sem motivo algum, só pelo prazer do reencontro. 

Era a Tia Nazinha, também, quem mobilizava todo mundo para angariar presentes para as crianças da escola pública que levava o nome da mãe dela, minha bisavó Adelina da Conceição Mendes. Ela tinha as datas certas para ir até lá, na cidade de Bela Vista de Minas. Só tenho certeza de que uma dessas datas era o Natal.  

Na introdução do livro ela conta que toda a renda obtida com a publicação seria revertida para os alunos da escola. E também diz que as informações reunidas ali são para os descendentes de Camillo e Adelina saberem como era a vida dos avós e bisavós, de toda a dificuldade que tiveram para criar os treze filhos. “O que vão encontrar aqui são muitas lembranças agradáveis, saudosas, que guardo dentro do coração e que eu quis deixar registradas”. Não é à toa que o nome do livro é Com muito carinho

A história começa com o casamento dos meus bisavós, no dia 24 de fevereiro de 1906, na fazenda da família da vovó Adelina (é engraçado, não consigo chamá-la de Bisa. Sempre chamei meus bisavós - que nunca conheci - por vovô ou vovó mesmo). Ela tinha 16 anos, vovô Camillo tinha 21. Já contei aqui um pouco da história de como ele foi pedir a mão dela, e de como a família se formou. 

Depois do casamento e dos primeiros anos de casados, o texto continua falando sobre o vovô Camillo e a vovó Adelina, um capítulo para cada um, com a descrição física e de personalidade de ambos. Também tem um capítulo para Cocota, que era prima da minha bisavó e foi morar com ela, logo depois do casamento. Era mais velha, solteira e sem filhos, e ajudou vovó Adelina a tomar conta de toda a grande família. Também tem um capítulo dedicado aos filhos já falecidos então: tia Zizinha, tio Geraldo, tia Terezinha (a caçula, e a primeira a morrer, de câncer); e também ao primeiro neto dos  meus bisavós que morreu: José, filho de tia Zizinha. 

Tem um capítulo para os costumes da época. Todos muito machistas, de arrepiar. Consta que vovô Camillo era bastante autoritário, mas muito amoroso, e que era até um tanto feminista para a época. Vovó Adelina dava aulas para as crianças, seus filhos e dos empregados da fazenda. As primeiras filhas estudaram pouco - vovó dizia que era o equivalente até a quarta série, ou quinto ano. As mais novas foram além. Tia Terezinha até se formou professora na Escola Normal de Ouro Preto. Isso demonstra que vovô Camillo se abria à vida, às “modernidades”. Tia Nazinha conta que ele nunca bateu nos filhos, o que é maravilhoso! 

A história continua com a descrição da fazenda do Rochedo, onde meus bisavós moraram logo depois de se casarem, e que foi vendida para que a família viesse para Ouro Preto - vovô Camillo queria encaminhar os filhos. 

A última parte do livro tem o levantamento de todos os descendentes de Adelina e Camilo, com os respectivos cônjuges, e as datas de aniversário e falecimento de cada um, quando era o caso. O livro foi publicado em 1991, e já era uma família muito grande. De lá pra cá, muitas mortes, mas muito mais nascimentos. Não conheço grande parte da família, mas fico imensamente feliz quando um deles me é apresentado. Fazer parte da família mais linda do mundo é um privilégio!

Para finalizar, duas poesias feitas por pessoas de fora da família, para vovô Camilo e vovó Adelina. Para ele, Parabéns, Papai, de José Bonifácio, ouro-pretano quase folclórico, escrita em 1968, quando vô Camillo foi homenageado como Pai do Ano pela Associação Comercial de Ouro Preto. Para vovó Adelina, a poesia Dona Adelina (ad memoriam), escrita pelo grande poeta ouro-pretano Brito Machado, logo após o falecimento dela. 

Voltei ao livro esses dias, porque precisei de um atestado de óbito dos bisavós. Sem ter certeza das datas de falecimento, foi o livro da Tia Nazinha que me fez resolver essa pendenga com muita rapidez. A oficial do cartório até ficou admirada de termos um livro com tantos dados - e por isso facilitar muito o seu trabalho também. 

Voltar ao livro da Tia Nazinha me fez reavivar o amor que sinto pela Família Mendes Barros. Deu saudade de todos - da vovó, em especial -, vontade de voltar àquelas festas em que nos reuníamos às vezes sem motivos, só pelo prazer de estarmos juntos. 



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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...