quarta-feira, 22 de junho de 2016

Livro: Canção Silenciosa - Contos


É curioso que muita gente que eu conheço escreve. E, mais que isso: muita gente que eu conheço publica livros. E sempre materiais de qualidade. Este Canção Silenciosa foi escrito por Ananias Zeca de Freitas, que eu conheci como Zeca, nos tempos de faculdade de Jornalismo. Foi meu professor de Ética e de Política (não me lembro ao certo o nome da segunda disciplina). O que eu me lembro bem foi do tanto que aprendi com ele. Zeca foi um professor rígido, desses que faz chamada cedinho (e as aulas começavam às 7h), impondo bastante disciplina. Lembro do silêncio da turma nas aulas e dos meus cadernos cheios de anotações (guardo até hoje, a letra ainda redonda, mas a escrita bem rápida, para dar tempo de acompanhar tudo). Meu caderno salvou alguns colegas nas vésperas de prova, de tão completinho que era. Enfim, Zeca foi um ótimo professor, que deixou em mim um legado. Quando trabalhei na assessoria de comunicação de uma das secretarias da Prefeitura de BH, ele era o chefe da Comunicação geral e, apesar de ser meu superior final, não nos encontramos nesse período.

Somos amigos no Facebook (carinhosamente chamado, também, de A outra rede social por quem prefere o Twitter o/) e foi lá que recebi o convite para o lançamento do livro Canção Silenciosa, o primeiro dele. Infelizmente, não consegui ir ao lançamento (essa #vidademestranda não nos dá muitas opções de interação social...), mas comprei o livro por email e, quando ele chegou, comecei a ler.

A leitura de Canção Silenciosa é bem rápida e fluida. O texto é suscinto, os contos são bem curtos. Mas isso não significa que sejam leves. Cada um deles é um aviso denso de que a vida é dura e cruel, que nós não estamos preparados para viver em comunidade, que fechamos os olhos, sempre, à dor e ao sofrimento dos nossos companheiros de jornada. Os contos se conectam, não só pelos temas, mas também pelos personagens. É a vida árida nas cidades pulsando. É a vida em Belo Horizonte latejando, pulando na nossa frente, mesmo que nós, habitantes de cidades (ou "da" cidade) façamos questão de desviar os olhos, de não ver.

Todos os 25 contos têm essa força. Mesmo assim, alguns se sobressaíram na minha leitura. Fragmentos; Miguilim moderno; Tédio (precisei de alguns minutos, após a leitura, para voltar ao "normal"; Matraca. Talvez seja o tema da invisibilidade, permeando as quatro histórias, que tenha gritado bem fundo por aqui. Ou pode ser a forma, de dizer tanta coisa com tão poucas palavras. O fato é que reli os quatro contos com o coração apertado, os olhos já bem molhados.

Uma curiosidade é que o Zeca utilizou alguns nomes gregos para personagens e, nos casos de Penélope e de Caronte, foi inevitável sorrir. Penélope é a costureira que cria fuxicos sentada na calçada, murmurando uma canção infantil. Caronte é o motorista de ônibus que precisa resolver uma queimação no estômago. Tem o Hércules também, mas este realizou trabalhos nem um pouco honrosos.

Enfim, Canção Silenciosa é um livro lindo, forte, contundente. Que merece várias releituras. Especialmente para fazer lembrar que vivemos em sociedade. E em tempo como os atuais, em que o Brasil se vê às voltas com o desmonte de programas sociais, é importante lembrar quem são as pessoas ao nosso lado, nas cidades ou não, que merecem ser vistas por inteiro.

Que venham novos livros, Zeca!



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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...