sexta-feira, 27 de maio de 2016

Plantão da barbárie

* aviso: estou emocionada demais pra conseguir articular ideias direito. Então, é possível que alguma coisa deste texto (ou textão, vá lá) saia desconectada, algum conceito fora do lugar. Além disso, tenho prazo pra enviar o material da qualificação. Mas como escrever me ajuda a colocar as ideias no lugar, tô aqui dando a cara a tapa. Um dia volto aqui e reviso. Isso, claro, se eu conseguir ter sangue frio pra voltar.

Há muitos anos, entendi que sou de esquerda desde pequena. Foi quando, numa sessão de análise, contei pra analista como foi que comecei a torcer pelo Atlético Mineiro. Lembro muito bem do meu vizinho me perguntando pra qual time eu torcia e, em resposta, perguntei quais times tinha. Ele disse Atlético e Cruzeiro. E cruzeiro era o nome do dinheiro na época (bem antes do cruzeiro novo, do cruzado, do cruzado novo, do cruzeiro novamente, a URV e do real, agora também chamado de dilma). Eu não quis torcer pelo dinheiro. Tinha seis anos e decidi torcer pelo Galo pra não torcer pelo dinheiro. Contei mais disso aqui, quando falei sobre minha vontade de desapegar do futebol por conta da violência).

Essa introdução sobre esquerda-dinheiro-futebol é pra falar que a subida do Temer ao poder (e sua agenda de direita) me incomoda muito. Mais do que eu sou capaz de expressar no momento. Não que eu estivesse satisfeita com o governo 2 da Dilma, e a minha insatisfação vem, justamente, da agenda de direita que ela implantou. Mas deixemos isso de lado e vamos ao que interessa.

Em 15 dias de governo, seu Temer fez tantas trapalhadas, tantos retrocessos... Para quem quiser saber mais dos retrocessos, a Kika Castro listou 16 em 12 dias. Cara, como é que pode fazer a história voltar atrás tão rápido??? Como pode jogar fora várias conquistas sociais? Como consegue deixar o social de lado?

Uma das coisas que mais me incomodaram foi o fim do Ministério da Cultura. E, de quebra, ver uma galera comemorando tanto a morte do ministério como detonando a Lei Rouanet, sem nem saber o que é a lei e como ela funciona. Aderbal Freire-Filho escreveu em um jornal como a coisa funciona de verdade. Nenhum artista é vagabundo sustentado pelo governo. A lei pode ter distorções? Sim. Tem. Mas isso não significa que deve ser jogada fora.

Mas, dirão alguns - o governo reconheceu o erro e voltou com ministério. Reconheceu o erro??? Sério que vocês acreditam nesse tipo de discurso? Gente!!! Ok, o ministério voltou. Mas vocês viram o Iphan? O novo MinC criou uma Sephan, com o objetivo de esvaziar o Iphan. Não consigo nem acreditar nesse tipo de coisa. Cadê o meteoro, cadê?

Li - acho que no Medium, perdoem a falta de referências - alguém dizendo que a tática do governo interino ilegítimo é fazer o maior número de ações chocantes rapidamente, para que, lá na frente, ninguém mais se assoberbe com qualquer coisa que ele faça: a ideia é que vamos nos acostumar com os choques e, pronto, ninguém mais vai contestar.

Faz sentido. E dói ainda mais. Vamos pensar um pouco como essa cultura do choque se reflete na nossa vida comum? Tem aquele famoso excerto de poema que, volta e meia, alguém atribui a Brecht, mas que, na verdade, chama "No caminho, com Maiakóvski" e que é de Eduardo Alves da Costa:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

E o novo ministro da Educação, que recebe Alexandre Frota e os Revoltados Online, como primeiros civis a serem ouvidos em audiência? Ouvir os estudantes, os professores, os técnicos em educação não, né? Tá muito triste viver nesses dias em que tudo parece ter virado do avesso. E o sujeito ainda sai da Educação e diz que vai procurar a Cultura. Meodeosdocéu... No dia em que o ministro recebe um cara que confessou, na TV, ter estuprado - na frente de uma plateia que ria e aplaudia, como se isso fosse normal -, uma menina é estuprada por mais de 30 homens. É filmada e o vídeo vai parar na rede.

Queria chamar a atenção para o "como se isso fosse normal" que falei no parágrafo acima. Quando alguém conta uma piada que envolve violência de qualquer tipo contra uma mulher, que seja aquelas em que se diz que mulher no volante é perigo constante, ou que elas devem esquentar a barriga no fogão e esfriar na pia, estamos reforçando o estereótipo de que a mulher é mesmo um ser inferior. E isso veio de Aristóteles, que dizia que a mulher é um homem incompleto. E foi parar no cristianismo pelas mãos de Tomás de Aquino. Aí estamos todos reforçando essa posição. É preciso quebrar essa corrente, é preciso parar com isso.

Não é normal uma pessoa ser tratada de modo diferente porque ela não está no padrão homem-branco-cristão-ocidental-rico. Não é normal mulher ser tratada como objeto. Não há justificativa para estupro. Como também não há para racismo, homofobia, intolerância religiosa ou de qualquer outro tipo. Não há justificativa, repito.

Vi aqui.

E não há justificativa praquela piada que dizem ser inocente. Não há justificativa pra mulher que julga a outra como piranha-vaca-vadia e outras coisas quetais. Não há justificativa que use argumentos como "a roupa estava curta", "ela pediu", "estava sozinha, estava querendo" e correlatas. A piada é a base da pirâmide que leva à fixação de papéis sociais, em que mulheres "não podem" fazer algumas coisas e "devem" fazer outras. Por exemplo, meu pai dizia que só eu e minha irmã tínhamos que aprender a arrumar a casa, lavar louça, lavar e passar roupas, porque é "coisa de mulher". Lembro um dia que pedi ao meu irmão para tirar a travessa de arroz da mesa e levar para cozinha. Ele foi, todo solícito. Mas meu pai o mandou voltar, colocar a travessa de volta na mesa, porque aquilo não era trabalho pra ele.

Esses estereótipos vêm cheios de ameaças, e não foram poucas as vezes em que fui repreendia apenas por ser mulher. Começou com o futebol, que era uma das minhas paixões enquanto criança. Lembro do grito do meu pai, pela janela do décimo andar, me mandando subir a-go-ra pra casa. Chegando lá, a bronca foi porque futebol era coisa de meninos e aquele tinha sido meu último dia jogando com os moleques do prédio. Se eu quisesse descer pro playground de novo, seria pra ficar no meu canto, no máximo conversar "civilizadamente" com eles. Nada de jogos, nada bola, nada de gritos e correria. Eu deveria me portar como "uma moça". Foi esse mesmo cara aí, que eu sou obrigada a chamar de pai, que um dia achou uma saia que eu usava muito curta. Me mandou tirar e a picotou em pedaços. Porque, com saias curtas assim, eu estava "pedindo pra ser estuprada", e ele não ia permitir que eu me "oferecesse por aí". Ele estava me protegendo? Não. Estava protegendo o sistema patriarcal que nos trouxe até aqui. Estava realmente preocupado comigo, com meu bem estar? Não. Estava preocupado em não ser o pai de uma "oferecida", porque isso era uma vergonha PRA ELE.

Pensar em educar meus irmãos para respeitarem as mulheres, seus corpos, suas roupas, seus desejos? Nunca o vi fazendo isso. Meus irmãos cresceram e se tornaram homens respeitadores, muito conscientes, por N fatores. E nenhum deles foi pelo que viram em casa. Essa alegria eu posso ter: meus irmãos têm pouco consigo o que nosso pai sempre fez questão que carregassem.

Voltando à base da pirâmide: nenhuma piada é inocente. Especialmente as que atingem as minorias (e antes que alguém diga que há mais mulheres que homens no mundo, minoria também se relaciona à força. O mundo é masculino, não há como negar). Então, eu não aceito. Algumas vezes, não reajo, porque dói demais ter que levantar das cinzas alguns temas pra argumentar. Mas sempre que posso, enfatizo: não faça esse tipo de piadas. Porque começa assim e termina em estupro, em morte, em barbárie. Mulheres, não façam esse tipo de piada. Não reforcem o machismo que nos oprime diariamente.

Pra finalizar, e sem querer doutrinar ninguém, retomo Kant. A grosso modo, ele dizia que precisamos investir pesadamente em educação e que, até os 16 anos, os seres humanos não controlam seus instintos. Precisam aprender com rigor, para poderem viver em sociedade. Após muito estudo, muito ensino, a pessoa de 16 anos estaria apta para enfrentar a vida sem deixar que os instintos animalescos tomassem a frente da razão. Não sei se dá pra concordar com essa coisa da idade, enfim. Eram outros tempos, outros arranjos sociais. O fato é que um homem só vai aprender que DEVE respeitar o corpo de uma mulher, não importa a circustância, se for muito bem ensinado, desde criança.





Então, senhores pais, por favor, façam um mundo melhor. Promovam uma sociedade em que haja respeito, tolerância, empatia, amor. Ensinem as crianças que respeito é fundamental. Ensinem os meninos a não estuprar.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...