quarta-feira, 18 de maio de 2016

Livro: O amor nos tempos do ouro



Livro novo da Marina Carvalho, O amor nos tempos do ouro mostrou, pra mim, que a Marina conseguiu amadurecer ainda mais a escrita. Foi lido em dois dias, burlando a bibliografia ENORME de Metodologia que tenho aqui.

O livro conta a história de Cécile Lavigne, uma jovem francesa que perdeu toda a família em um acidente e se vê às voltas com uma nova realidade: sem pais e irmãos, à mercê do tio que vive no Brasil e que passa a ser seu tutor, com o olho grande na herança da menina. Para isso, ele decide que o melhor é casá-la rapidamente com um rico senhor de minas de ouro das Minas Gerais. O acordo inclui que o tio ficará com uma porcentagem dos bens da jovem.

Cécile, então, viaja de Marselha para Lisboa e, de lá, para o Rio de Janeiro. Mal chega à casa do tio, é enviada com uma comitiva de negros, índios e homens livres para Vila Rica, onde vive seu noivo. A menina só pensa em morrer, para se reencontrar com seus pais e irmãos. Tudo a incomoda: o Rio de Janeiro, o tio e sua família, o jovem aventureiro que a levará para Minas Gerais. Fernão é rude e tem como único objetivo enriquecer com os trabalhos nem sempre honestos que faz para fazendeiros e nobres. Ele vê Cécile como seu último trabalho: após receber seu pagamento, vai se retirar para sua propriedade, distante o suficiente para não ser mais incomodado por trabalhos que não deseja mais fazer.

A viagem é cheia de percalços, e a chegada à Fazenda Real significa que Cécile terá que se submeter ao futuro marido violento - com ela e com todos os que o rodeiam, mais intensamente ainda com os escravos -, que não tolera ser desobedecido e que, já na primeira noite da jovem por lá, decreta um severo castigo. A jovem sofre e tenta se resignar, mas sua natureza é indomável, o que gera mais conflitos. Fernão, já enamorado pela francesa altiva, decide que é hora de tirá-la de lá, antes que o casamento aconteça e que Cécile perca, de vez, sua liberdade.

Em meio à situação degradante dos escravos mineradores, à opressão geral aos desfavorecidos, à situação de gênero, o romance caminha prendendo a atenção do leitor. É difícil desgrudar a atenção da história do Brasil, por trás do romance. Das entradas e bandeiras, do ouro que motivou buscas enfurecidas e tanta irracionalidade, das intolerâncias de ontem - e que estão por aqui até hoje, mesmo que travestidas de "não somos racistas, não somos sexistas". O amor nos tempos do ouro dói. Mesmo que haja romance, mesmo que haja aquela torcida pelo final feliz - e mesmo que a gente saiba que ele virá. É sofrido pensar que o pano de fundo realmente aconteceu, e que não nos preocupamos tanto assim com isso, como se as águas passadas não movessem moinho. Mas as águas mancham por onde passam, e essa mancha não sai.

Penso que é o livro mais bonito da Marina, porque atinge esse ponto da história e porque é o mais bem acabado (não que os outros não fossem, claro). Talvez seja a linguagem que me deu essa impressão, mas considero que não, que é amadurecimento mesmo do trabalho de escritora, o que só tenho a comemorar. Que venham mais livros lindos e tocantes por aí!

Já escrevi sobre outros livros da Marina:
Simplesmente Ana
De repente, Ana
Elena, a filha da princesa
Ela é uma fera!
Azul da cor do mar (este continua sendo meu favorito, mesmo eu achando que O amor nos tempos do ouro o superou em qualidade. É uma "favoritice" afetiva, me deixa!)

_______________
Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...