quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Livro: Indefensável



O caso do goleiro Bruno mexeu muito comigo. Por conta da crueldade, por conta da cobertura jornalística. Com certeza, daria um livro. Nasceu Indefensável, escrito por três jornalistas que se envolveram na cobertura do caso, um deles ainda quando Eliza Samúdio denunciou Bruno e seus amigos por cárcere privado e otras cositas más. Leslie Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho mergulharam na história e narraram a triste história do goleiro que se achava superior a todo mundo, inalcansável pela lei, com um prestígio que o poderia se livrar das consequências de qualquer ato.

Indefensável conta a história de Bruno, da infância pobre em Ribeirão da Neves, a família desestruturada, o começo nos campinhos de futebol, nas peneiras, tentando fazer do esporte sua profissão. Também fala do início do namoro com Dayanne, a primeira namorada e primeira esposa, com quem teve duas filhas. O livro dá a entender que ela não teve participação no assassinato de Eliza, mas também aponta que sua absolvição pela justiça veio por conta de um acordo entre defesa e promotoria.

Também traz a história de Eliza, sua vida familiar conturbada, a escolha por tentar a vida em São Paulo, por fazer filmes pornô e tentar entrar no mundo do futebol. A narrativa apresenta a moça como ótima mãe, muito preocupada com o filho. Não sei... não consegui comprar o tanto que insistiram nisso. Pode ser porque um dos jornalistas conhecia Eliza e via de perto sua atuação como mãe. Mas a repetição de "Eliza era uma ótima mãe" ao longo do texto me indicou que queriam forçar isso para o leitor.

Também me incomodei com o tanto de vezes que os autores escrevem que Bruno estava normal depois do assassinato de Eliza, que talvez estivesse mais introspectivo, que talvez pensasse em seus atos, mas pontuam com um "nunca saberemos", que distoa completamente da narração jornalística que a obra segue. As adjetivações são bem cansativas, ao longo do texto. Tiram o caráter jornalístico da pesquisa.

Como apuração jornalística, o livro é bem interessante. Tem informações que não vi na imprensa (podem, sim, terem passado batidas, podem nunca terem sido publicadas). Tem apuração mesmo. Mas também tem algumas informações imprecisas. A cor da mala da Eliza é uma delas. Mas tem outras ao longo do texto. Há momentos em que a narrativa fica bem confusa, quase como uma colcha de retalhos ainda em construção, ou as peças de um quebra-cabeças desconectadas, espalhadas pela mesa. Faltou revisão, será? Foi pressa para publicar o livro e não perder o calor dos acontecimentos?
Acho que sim. O que não é um pecado, mas atrapalha a edição.

Enfim, acho que é uma boa história jornalística, mas o tratamento do texto não foi legal. Li a 2ª edição, então acredito que devem ter corrigido algumas coisas. Mesmo assim, acredito que ainda precise de mais uma revisão atenta.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...