quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Livro: A garota no trem



Fiquei muito a fim de ler este livro, mas fui deixando o hype passar. Primeiro porque, na capa, tem uma frase que o compara a Garota exemplar, que eu amei. Depois, porque eu li o outro livro da Gillina Flynn,  Objetos cortantes, e queria dar um tempo desse topo de leitura. E tem o agravante: tem "a garota" no título. Então, deixei de lado, mas o volume caiu em cima de mim e lá fui eu descansar no capítulo um da dissertação com a leitura de A garota no trem, durante dois dias, antes de dormir.

A garota do título é a Rachel, a protagonista que mais precisa de um choque de realidade nesse mundo. Ela é insegura, mente compulsivamente, bebe loucamente e tem uma fixação com uma certa família que vê, todo dia, do trem que a leva do subúrbio a Londres, onde ela finge que trabalha. Rachel é divorciada - seu marido se casou com outra mulher e tem uma filhinha - e a dissolução do casamento mexeu com ela a ponto de viver querendo voltar, de intensificar o álcool em sua vida e ser demitida do trabalho por aparecer bêbada por lá. Ela mora de favor com uma amiga e a engana, porque não tem coragem de contar que perdeu o emprego. Por isso, todos os dias ela pega o trem para Londres pontualmente, como se fosse pro trabalho, e volta também no horário de sempre. O trem para, sempre, num mesmo ponto. De lá, ela observa essa família e cria uma história para eles: são a Jess e o Jason, um casal de comercial de margarina. Há três casas dali vive seu ex-marido com a nova esposa e a filhinha.

Numa de suas idas a Londres, numa sexta-feira, Rachel vê Jess sendo beijada por outro homem. Nesse momento, ela se sente traída. Isso porque sua história de Jess e Jason, a família perfeita, cai por terra. Rachel passa o dia atormentada, bebe demais e resolve descer do trem na estação da sua antiga casa e seguir até a casa de Jess e Jason. Mas ela está tão bêbada que não sabe o que aconteceu: acorda em sua cama, no sábado. Vomitou na sala, tem uma ressaca absurda, um ferimento na cabeça, está suja de sangue e só tem alguns flashes de memória: encontrou com Tom, seu ex-marido, e com Anna, a atual esposa. Houve discussão. Algo de muito ruim aconteceu nesse encontro, mas Rachel não se lembra.

Na segunda-feira, de volta ao trem, ela vê a foto de Jess nos jornais. A moça, que na verdade se chama Megan, está desaparecida, desde a sexta à noite em que Rachel perdeu a memória. Ela tem certeza que o homem que viu beijando Megan pode estar implicado em seu desaparecimento e tenta ajudar. Mas aí, como num filme de sessão da tarde, acontece toda a sorte de confusão.

Rachel é daquelas personagens que a gente tem raiva. Que faz você querer entrar na história e sacudir. Pra justificar sua história, ela conta uma série de mentiras e nem pensa em como sustentá-las. Mergulha de vez na bebida. Passa por situações vexamosas. Sofre violências de quase todo tipo, porque está tão passada que não tem discernimento para não cair nas armadilhas da vida nem dignidade para se manter ilesa.

Enfim, o mistério da história é o que aconteceu com Megan e como Rachel está implicada nisso tudo. A trama é narrada por Rachel, Megan e Anna, que se alternam narrando capítulos. Mas a autora não deu vozes diferentes às personagens. Elas falam do mesmo jeito, então fica difícil acreditar que a protagonista do capítulo mudou. Se não estivesse escrito quem fala lá no alto do capítulo ficaria bem difícil, só pela voz narrativa, saber qual delas está falando.

A garota no trem passa muito longe de Garota exemplar. Talvez a questão "o que aconteceu com Megan?" possa indicar que é um livro de suspense, mas não. É um livro meio que sem identidade. Os personagens não são empáticos, não têm histórias verossímeis, o encerramento do mistério é bem fuén.

Valeu pro meu entretenimento de fugir do capítulo um da dissertação, e só.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...