quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Livro: Número Zero



Já contei que tenho uma relação de amor de ódio com Umberto Eco. No geral, amo os livros de literatura dele, mas para chegar nesse amor final, passo por vários estágios em que amor e ódio se alternam. Talvez O nome da Rosa seja o único em que não vi raiva durante a leitura. Em Número Zero, essa balança pendeu bem mais para o amor. Talvez porque a raiva tenha sido direcionada para um dos personagens, com uma visão bem particular do jornalismo.

Número Zero é um livro que fala de jornalismo. Não só porque estamos lidando com a redação do jornal Amanhã, mas com quase todas as formas de manipulação que o jornalismo oferece. O personagem principal, Colonna, é chamado para participar do projeto de criação do jornal Amanhã, que tem como único objetivo pressionar os inimigos políticos do Comendador Vimercate. Quem o convida é Simei, que vai chefiar a redação e dá a Colonna uma missão secreta: escrever a história de Amanhã, mascarando fatos e tornando o jornal, criado apenas para causar, em um veículo respeitado. Colonna aceita porque quer o dinheiro e porque, como não se formou em nenhuma faculdade, vê o trabalho como única opção.

A redação é formada por jornalistas fracassados, como Maia, que só trabalhava com a cobertura de amizades coloridas entre famosos. Tem Braggadocio, que vê conspiração por todos os lados e Lucidi, que tem amigos no Serviço Secreto. Óbvio que a experiência não dará certo.

Umberto Eco é muito sagaz em seus romances. Sempre encontra uma forma - sutil ou não - de enfiar um machado nas feridas abertas. Aqui, ele desnuda a composição das notícias. "Não são as notícias que fazem o jornal, e sim o jornal que faz as notícias", diz Simei em uma das reuniões de pauta. Mesmo que a trama se passe em 1992, quando havia certa efervescência na Itália, o modo de produção do Amanhã é muuuuito parecido com o da imprensa brasileira. Dá até pra pensar que Mr. Eco fez um estágio em alguns veículos brasileiros antes de escrever Número Zero. Porém, a verdade é que a forma de se noticiar não é diferente, seja na Itália, no Brasil ou em qualquer outro país, e nem adianta falar em imprensa livre, porque a imprensa nunca-nunca-nunca é livre.

Pra quem não sabe mesmo como a imprensa funciona, Número Zero é uma boa aula inaugural. Pra quem já sabe, não deixa de ser divertido ver as reuniões de pauta e os ensinamentos de Simei.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...