quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Tchau 2015

2015 começou estranho. Tinha perdido minha avó há poucos dias. Iríamos passar a mudança de ano com a família do Leo, em Vitória, mas não conseguimos ir. Ou melhor, eu não consegui ir. Não queria entrar em clima de comemoração sendo que estava arrasada e sem chão. Cancelamos hotel e remarcamos a passagem aérea. O começo do ano foi com amigos, em BH. Um grupo bem pequeno. Alguns, esperando uma virada tranquila. Outros, também somando perdas. Choramos juntos. Mandamos, juntos, 2014 pra bem longe.

A viagem pra Vitória virou uma ida linha a Curitiba. Era pro Leo ir a um show. Acabou sendo minha comemoração pela aprovação no mestrado. Era algo que eu queria há muitos e muitos anos, e vinha me preparando aos poucos. Não pensei que a aprovação viria agora. Estava preparada pra tentar novamente, quantas vezes fossem necessárias. Ainda bem que a aprovação veio rápido, porque o mestrado preencheu minha vida. Não estou dizendo que substituiu a ausência da vovó ou da Tia Ylza. Só que me deu mais e mais coisas pra pensar, pra fazer, pra me ocupar. Tenho certeza de que as duas gostariam de ver isso. Mesmo que vovó dissesse, por entre dentes, que eu estou estudando demais - ela sempre dizia, mesmo quando não se aplicava.

Vovó e Tia Ylza não me viram descabelada e louca porque tinha prazo de menos e coisa demais pra fazer. Não me viram dividida, no início do ano, entre dois trabalhos grandes, o mestrado, a vida pessoal. Não viram que em 2015 eu praticamente não liguei a TV em casa. Que assisti só a dois jogos de vôlei (não tinha a vovó pra me perguntar de que lado estava o Brasil, como o jogo acaba e se é vôlei ou basquete). Que nunca mais vi um capítulo de novela (eu via porque a vovó via, era meu único tempo ao lado dela). Que nem telejornais eu vejo mais. Também não viram que eu quase desisti do futebol, porque tá ficando chato acompanhar o fanatismo. Que não vi nenhum jogo de rúgby. Nem que fui parar numa disciplina de Jornalismo Esportivo no estágio de docência. Nem sobre a disciplina de Webjornalismo, que é o estágio oficial, elas ficaram sabendo.

2015 foi um ano de recomeços. Foi preciso colocar cada coisa em seu lugar. Recomeçar a vida sem a vovó, sem a Tia Ylza. Recomeçar a vida acadêmica em nível hard, porque graduação, mesmo em filosofia, é fichinha perto do mestrado. Recomeçar a trabalhar, desta vez sem o paralelo com a esteira - antes, corria demais e não saía do lugar. Foi o primeiro ano em que consegui planejar tudo do trabalho. Pela primeira vez, depois de anos tentando implantar um planejamento decente, rolou. E foi importantíssimo, porque só assim pra conseguir conciliar mestrado e trabalho. Só assim pra conseguir viajar pra congresso no meio de um mês cheio de eventos.

Também foi um ano de encontros. De refazer laços, de estreitar relacionamentos. Foi o ano em que eu mais recebi manifestações de afeto e força, desde que comecei a comparar. Fui surpreendida por muitas pessoas, que vieram sentar ao meu lado, falar, me ouvir. Nem dá pra dizer os nomes, porque corro o risco de esquecer alguém. Ao menos, posso afirmar que encontrei amigos por todos os lados. E se isso não é a vida sorrindo pra mim, não sei mais o que é. Foi o ano em que a frase "cada um dá o que tem" fez muito sentido, porque foi vista muitas vezes, na prática.

Foi o ano em que Tio Jésus foi embora. Eu tinha certeza de que a sua última visita a Ouro Preto foi no velório da vovó. Quando ele me ligou para falar sobre a morte da vovó, disse para esperarmos ele chegar, para só enterrarmos o corpo quando ele estivesse aqui. Ele estava se recuperando de uma doença pulmonar, depois de um mês de hospital. A médica não o deixava viajar, e só abriu exceção porque era uma situação especial. Ele veio deitado no banco de trás do carro do Bruno, para proteger o pulmão. Foi o melhor abraço que recebi naquele dia. Soube, ali, que ele não voltaria a Ouro Preto. Planejei, então, ir ao Rio em setembro. Seria um congresso e teríamos muito tempo pra conversar. Porém, em julho ele voltou pro hospital, com o mesmo problema pulmonar. Não resistiu. Não voltei a ver Tio Jésus com vida. Não voltei a sentir aquele abraço afetuoso. Mais uma ausência doía, mais um velório sofrido. O Rio de Janeiro não vai continuar sendo lindo.

Foi um ano em que eu li muito pouco de literatura. Primeiro porque nada me prendia a atenção. Depois, porque tinha que estudar pra seleção do mestrado. Depois, pras disciplinas, trabalhos e artigos. Agora, pra dissertação. Livros técnicos são legais, estou aprendendo bastante. Mas sinto muita falta da literatura. Muita mesmo. Ok, utilizo literatura no meu objeto de estudo, mas não é a mesma coisa. Por outro lado, só mudaremos o cenário em 2017, e olhe lá.

2015 foi um ano meio maluco pra política e pra economia do Brasil. Mas pra mim, foi um ano muito bom. De superação, de laços, de caminhos. Que me deixa com muita vontade de ver 2016, de continuar a caminhar e a construir o que eu sonhei há muitos e muitos anos.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...