domingo, 20 de dezembro de 2015

Lírios

Vó, descobri que não sou mesmo uma boa jardineira. Resolvi cuidar do jardim depois que você foi embora. No início, minha dedicação foi grande: li algumas coisas, aprendi a manejar as tesouras, a afofar a terra, a regar quando fosse preciso. Achei bom você não ter visto a crise hídrica, em especial em janeiro deste ano. Porque eu tenho certeza de que você ficaria bem triste com a situação e por ter que economizar água com as plantas. Mesmo assim, a hera cresceu. Fui podar. Foram dias felizes, em que mexer com as plantas e com a terra me fazia ficar bem pertinho de você. Enquanto enxugava o suor da testa, misturado com a seiva grudenta da hera, eu imaginava você sentadinha ali no quintal, sorrindo pra mim.

Me dediquei, Vó, mas não sou boa com plantas. Lembra daquela árvore de manjericão que eu plantei? E que por anos nos abasteceu do tempero fresquinho, ingrediente fundamental pro famoso Macarrão da Bel, que você tanto gostava? Pois é... a árvore secou. Por inteiro. Foi muito triste, porque ela também me fazia lembrar de você. Por outro lado, finalmente temos alecrim. Foram muitos e muitos anos de tentativa, não é? E ele finalmente vingou, tão grande quando a nossa árvore de manjericão. Também temos mais orégano, funcho e hortelã. Eu sei que você não gosta de hortelã, nunca gostou. Mas até ela me lembra você. E sobre o manjericão, repeti o processo para plantar. Foram dias esperando as raízes surgirem. Depois, o transporte pro vasinho e, por último, para o canteiro. Ele está pequeno, mas esperamos que fique tão grande e imponente quanto o outro. Ainda fazemos o Macarrão da Bel, mesmo sem manjericão, e sempre penso que você ficaria feliz, já que trocava qualquer lanche da tarde por ele.

O jardim continua florido. Foi nele que encontrei forças pra me levantar toda manhã. Saía da cama bem cedo e subia pra molhar as plantas de leve - estávamos economizando água. Pensava em você ali, agachada junto aos canteiros, cuidando das flores. Eu não tenho o seu dom com as plantas. Durante um período, o jardim ficou mais tristinho. Era a falta de água, era a sua falta. Era a minha falta de jeito também. A Fátima ajudou bastante. Graças a ela, o canteiro com as margaridas amarelas está lindo de novo.

Foto: Leo Homssi

A natureza foi bem resiliente, Vó. Lembra do jasmim que a Tia Ylza te deu? Pois é, ele floriu lindamente em setembro. O perfume invadiu o jardim e foi incrível passar por lá e ver que, mesmo com a minha falta de jeito, a sua vontade de ter tudo em ordem por lá prevalece.

Não poderia me esquecer dos lírios! Entre outubro e novembro, eles apareceram com força, crescendo com muito vigor e também invadindo o ar com o cheiro forte. Muito pólen espalhado pelo chão. Lembrei da sua colheita anual de lírios para levar aos cemitérios no dia 2 de novembro, visitando seus mortos.

Não levei lírios pra você, Vó. Continuo achando que você está mais presente aqui, no jardim de casa, do que naquela sepultura, no cemitério. Deixei os lírios florirem pra você. Tive certeza de que você dançaria entre os canteiros, cheiraria o jasmim, sorriria pras margaridas, podaria a hera, mexeria na terra de cada flor ou arbusto. E levaria os lírios pra onde você estiver.

Saudades, Vó.


Foto: Leo Homssi


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...