sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Prioridades

Passei a semana reclamando que nada ia dar tempo. Muita coisa esquisita aconteceu. E sempre acontece quando preciso adiantar coisas do trabalho. Terça-feira e o desespero já estava batendo.

Daí que ontem um amigo de um jornal de BH me liga pedindo contatos para falar sobre a barragem que se rompeu em Mariana, no distrito de Bento Rodrigues. Pensei que não seria algo tão sério, já que ele pedia o telefone de autoridades e de moradores do distrito. Mas as notícias que foram vindo eram mais do que terríveis. Ainda desencontradas, falando em 16, 20, mais de cem mortos. Imagens de sobrevoo do local, muita lama, tudo fora do lugar. Imagens sem som, mas que gritavam, ainda gritam. 

Fiquei pensando na volta pra casa. De quem conseguiu sair do distrito, mas perdeu tudo. Não tem casa pra voltar. Não tem lar, não tem abrigo, não tem colo. Não no sentido do aconchego. Pq casa é mais que construção onde se habita. Casa é muito mais que isso. É a certeza de ter um lugar - físico ou espiritual - pra onde se pode voltar sempre. E esse desamparo de perder a casa quase nunca é consertado com um outro abrigo, outra construção. 

Perde-se referências demais, numa tragédia como essa. Coisas sem preço, sem qualquer tipo de reposição. Fotos, laços, cartas, objetos de afeto. Um sem número de "porcarias boas", como dizia a Tia Ylza para se referir aos seus guardados que só o amor explicava. Como reconstruir uma vida sem esse tipo de âncora?

Entre parênteses: o que é o meu desassossego do dia a dia frente a uma dor como essa?