sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Sobre pilhas e pilhas de memórias

Tinha seis anos de idade quando mudei de cidade pela primeira vez. Não lembro de muitas coisas. Só de que eu queria continuar morando em Ouro Preto, tinha medo de Belo Horizonte e de que meus avós, meu tio e meu padrinho arrumaram uma viagem às pressas pra não ver a nossa mudança.

Na segunda vez, lembro do pânico de ir morar em uma cidade tão longe de Minas. São Luís não me seduziu enquanto ainda nos preparávamos pra mudar. Isso só mudou quando cheguei lá e descobri que podia ser mais livre pra brincar (falei de São Luís aqui, aqui, aqui e aqui). Pra mudar, meus irmãos e eu viemos pra Ouro Preto, enquanto nossos pais encaixotavam tudo e davam prosseguimento. Lá, ficamos 20 dias num hotel enquanto procurávamos apartamento. Lembro de ter ajudado um pouco na mudança pro apê da avenida da Paz. Sempre gostei de colocar as coisas no lugar.

Um ano depois estávamos voltando pra BH. Dessa mudança eu tenho mais recordações. Lembro de arrumar minhas roupas, meus livros, meus brinquedos em caixas e, também, de rearrumar boa parte no apê de BH.

A troca de apartamento em BH é a mudança de que mais me lembro. Primeiro, porque sair do apê em que vivemos desde pequenos (apenas com a interrupção do ano em São Luís) foi bastante doloroso. Havia muitas memórias entre paredes. Ver o apartamento vazio doeu muito. É curioso que ainda hoje eu sonho com aquele prédio. Com as escadas, os elevadores, o salão de festas, o playground, as garagens... Engraçado como ainda penso em morar lá de novo. Os melhores dias de brincadeiras e companheirismo foram vividos ali.

Por outro lado, o novo apê era maior e mais confortável. A data da mudança foi o único dia em que matei a aula no cursinho, só pra ficar por conta. Foi rápido colocar tudo no lugar. E que deu aquele cansaço gostoso depois de tudo pronto e limpo. Parecia um recomeço, sem ser assim, exatamente.

Recomeço mesmo foi quando me mudei pro apê em que morei sozinha. Em que cada coisa entrou lá com um sentido. E que também trouxe tristeza quando juntei tudo e vim pra Ouro Preto. Era outra vida, outro tempo. Fui muito feliz lá, e também seria (e sou) muito feliz aqui.

Há cerca de um ano estou às voltas com outra mudança. Não da minha casa, mas de uma casa que ficou por minha conta por acaso do destino. Um ano pra conseguir enfrentar tudo o que uma vida demorou mais de 90 anos para juntar, para acumular. Com muitos detalhes, muito cuidado, muito carinho, muita história e muitos tesouros.

Sim, é um trabalho enorme desmontar uma casa. Tirar todos os móveis de lugar, tirar a poeira escondida ali atrás, onde uma cômoda antiga ficou estacionada por mais de cinco décadas. E pensar em cada coisa que está lá, no destino de cada uma - quem vai ficar com isso? e com aquilo? quem merece? quem tem direito?

Além dessas questões ainda tem o enfrentamento. É ter que lidar com as paredes que contam histórias, com aqueles cantos escondidos onde, há tantos anos, alguém brincou de carrinho. É encontrar a rede em que alguém lia um livro ali, dobrada, dentro de um saco plástico, na parte superior de um armário. É lembrar daqueles momentos em que eu tratava a banheira como se fosse minha piscina particular. Encontrar uma pasta com cada cartinha que escrevi, desde que aprendi a desenhar as letras. É ver maços e maços de cartas de remetentes desconhecidos. Fotos do início do século XX, do finzinho do século XIX, com pessoas que sabe-se lá quem são. São cadernos com trovas, poemas, contos. E receitas de tricô. E receitas de doces escritas a bico de pena, com medidas em libras. É ver aquele cantinho ali, atrás daquela porta, que a gente nem lembrava que existia, mas que guardava algo muito bem guardado. É descobrir portas, passagens, torneiras e objetos. É abrir uma caixa de madeira e ver os bilros de renda da avó do meu avô.

O medo de enfrentar isso tudo me deixou parada por um bom tempo.

Porém, já dizia o ditado que "quem tem amigos, tem tudo". E uma amiga, dessas que põe a gente pra cima, não tem medo de nada - nem de aranhas canibais assassinas -, é despachada e segura, acabou me colocando pra frente, pra enfrentar poeira, móveis, aranhas e uma pilha muito maior de memórias. E, juntas, fomos desbravando aquele mundo de coisas.

Foi preciso deixar a emoção de lado, da porta pra fora, e agir como se nada de mais estivesse acontecendo. Mesmo assim, foi fácil me emocionar com coisas tão pequenas que fui descobrindo por trás daquelas vidas que foram vividas ali. Vou compartilhar algumas delas aqui, assim que puder.

Não é fácil desmontar uma casa. É o momento de se deparar com traços de outras vidas - mesmo que essas vidas sejam nossas mesmo. E o barato da coisa, além das descobertas, é saber que todo ponto final dá margem para um novo início.

Obrigada, Nancy. Sem você, nada disso seria possível!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...