quarta-feira, 1 de julho de 2015

Livro: A arte de calar



Primeiro dia da aula de Semiótica no mestrado e vem a notícia de que todas as aulas serão seminários, a cada dia apresentado por um aluno. Não sei o que me deu... queria ter escolhido a primeira apresentação, que tinha textos filosóficos, mas acabei com a oitava, a da aula nº 9. Pra leitura havia um texto de um cara que é considerado um dos herdeiros de Marshall McLuhan e este livro, A arte de calar, escrito em 1771 pelo Abade Dinouart. Primeira dúvida: como ligar um texto do fim do século XX com outro do século XVIII? Achei que seria uma tarefa inglória, mas não foi o que aconteceu. A arte de calar é um livro super atual.

O contexto é o da pré-Revolução Francesa, é o século do Iluminismo e dos grandes questionamentos filosóficos sobre a religião como doutrinadora. Tudo se contesta, tudo se quer conhecer. E para o Abade Dinouart, era a hora errada para esses questionamentos. Ele acreditava piamente que o que Deus ocultou aos homens deve se manter oculto. Com uma frase do capítulo 3 do livro Eclesiastes, da Bíblia, ele baseia o livro: há tempo para falar e tempo para calar. 

Para Dinouart, escreve-se mal, escreve-se demais e não se escreve o suficiente. Ele disseca essas três observações no livro, dando destaque à necessidade de se exercitar o bom senso: a proposta é que só se diga alguma coisa quando se tem muito conhecimento para isso. E, para ele, o conhecimento todo do mundo já está dado: não há mais o que investigar. Assim, não é preciso que haja dois (ou mais) livros sobre o mesmo assunto - basta o que foi publicado primeiro. Também é preciso ter bom senso na hora de tratar de um assunto que se domina: na empolgação, acabamos falando demais sobre o tema, quando é necessário ter concisão.

Em dois capítulos, Dinouart descreve quais são os dez tipos de silêncio e quais tipos de pessoas causam esse silêncio. É uma espécie de estudo do homem. Pena que ele acredita que apenas dois tipos de silêncio são válidos e que apenas o homem pudente ou político sabe fazer o silêncio correto.

Em tempos de mídias sociais, é fácil dar voz a Dinouart e considerar que ele está correto. Na verdade, o autor tem medo do novo e quer evitá-lo. Não é a favor da alfabetização - do mesmo modo que, hoje, muitas pessoas são contrárias à inclusão digital porque ela dá voz a quem sempre esteve sem lugar para se manifestar. O abade acerta em muitos pontos e, por isso, seu texto é bastante atual. Mas, por outro lado, o preconceito com o diferente é seu calcanhar de Aquilles.

Mesmo assim, é uma leitura fluida e bem divertida. O livro é bem curto e escrito de forma bem agradável. O contrtaponto com o Derrick de Kerchkove, o outro autor do meu seminário, foi bastante interessante. Dinouart entra, fácil, na lista de livros mais legais de 2015.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...