quarta-feira, 3 de junho de 2015

Livro: Dois irmãos



Estou prevendo que os dois anos de mestrado serão de muita leitura técnica, muitas estatísticas, muitos gráficos,  muitos textos em inglês e espanhol, muitos livros extras e quase nenhuma literatura. Por isso, estou valorizando ainda mais o Clube de Leitura da Set Palavras. O último livro foi Dois Irmãos, do Milton Hatoum. A indicação foi da minha xará, a Aline. E que livro legal!

O livro se passa em Manaus, de pouco antes da Segunda Guerra até os anos 2000, e conta a história da família de Halim e Zana. Os dois são descendentes de libaneses e se conhecem no restaurante do pai de Zana. A paixão é imediata e logo vem o casamento. Halim não quer ter filhos, mas após a morte do pai, Zana é implacável e resolve engravidar. Nascem o gêmeos Yaqub e Omar. Logo depois, vem Rania. Como não poderia deixar de ser em um livro com esse título, os gêmeos são opostos, quase como as duas faces de uma mesma moeda. Yaqub é muito racional, estudioso, obediente. Omar é pura sensualidade, muito sedutor e malandro. Ao nascerem, Omar passou por um problema de saúde e, desde então, Zana ficou cheia de cuidados com ele, a ponto de não mais esconder sua preferência pelo caçula dos gêmeos. Yaqub ficou sendo cuidado por Domingas, a garota indígena que serviu a família quase que como uma escrava. Óbvio que o mais velho se ressente, tanto da falta de carinho da mãe quanto da falta de atitude do pai. Halim só quer saber de estar com Zana na rede e acredita que os filhos vieram para atrapalhar seus momentos de amor.

Mas aí aparece a Lívia, sobrinha de uma das vizinhas da casa, e a relação dos irmãos, que já era tensa, fica ainda pior. Omar agride Yaqub e Halim acha que é hora de mandar os dois para o Líbano. Mas Zana se revolta e não deixa Omar ir. Quem é apartado da família é Yaqub, com uma cicatriz no rosto, provocada pelo irmão.

Quem conta a história é Nael, filho de Domingas. É um observador atento e curioso, com uma narrativa muito envolvente. Ele quer descobrir uma questão importante de sua vida, que envolve a família dos patrões de sua mãe. Enquanto observa o caçula Omar sendo paparicado por Zana, Yaqub e sua fuga para São Paulo, o papo arrastado de Halim, o sofrimento de Domingas e a força de Rania. A força da tecitura do texto é grande. Foi inevitável me lembrar de Cem anos de solidão. Não pelo tamanho - Dois irmãos é um livro até bem fininho. Mas pela forma com que a história da família é contada.

Além da forma, da organização do texto, da trama de uma cidade tão misteriosa como Manaus, da forma sutil como o autor toca nas relações estilo casa grande e senzala, o silêncio de Domingas, a loucura de Zana (falam tanto da mãe judia... acontece que depois de ler, fiquei com medo é da mãe árabe), ainda tem Nael tentando encontrar um caminho em meio a tantas pontas soltas, tantas histórias sem um ponto final.

Uma parte da história me tocou profundamente, mas não vou falar sobre ela, porque ainda dói. Foi a única parte do livro que marquei, mas o post-it foi retirado da página para ser dado a uma pessoa que precisava. Mesmo assim, consigo alcançar o texto, reler os três parágrafos e deixar as lágrimas correrem. Que livro intenso!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...