quarta-feira, 24 de junho de 2015

Filme: Birdman

Birdman: Or (The Unexpected Virtue of Ignorance) - 2014 (mais informações aqui)
Direção: Alejandro González Iñarritu
Roteiro: Alejandro González Iñarritu, Nicolás Giacobone
Elenco: Michael Keaton, Zach Galifianakis, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts

O que é deixar uma marca no mundo? Por que, em algumas pessoas, a vontade exacerbada de "ser alguém", ou de ser reconhecido como "alguém", leva a um caminho que é, ao mesmo tempo, de afirmação e de desespero?

Riggan Thompson é um ator holywoodiano que fez sucesso há alguns anos com a trilogia do Homem pássaro. Ao recusar o quarto papel da franquia, porque acreditava ser um ator melhor para aquele tipo de produção, acaba caindo em uma espécie de ostracismo produtivo. Seus fãs se lembram dele como o Homem pássaro, mas ele quer esquecer. Para provar ser um ator de verdade, ele resolve se aventurar pela Broadway. Porque, como em várias partes do mundo, o teatro é uma arte considerada superior ao cinema de simples entretenimento. Podemos ver isso no Brasil, na oposição novela x teatro. Riggan escuta o seu alter-ego, o Homem pássaro, provocando-o constantemente, durante os momentos mais caóticos da produção da peça - um ator se acidenta e é substituído por outro, que é bastante estrelinha e causa uma série de problemas; sua filha, irritada com o pai ausente, está estressada por ser obrigada a trabalhar na peça e ainda está lidando com sua saída de uma clínica de reabilitação; a namorada de Riggan pode estar grávida e o produtor da peça já está desesperado com a falta de dinheiro e um processo vindo do ator acidentado.

Enquanto isso, Riggan segue com sua mania de grandeza: acredita - ou quer acreditar - que consegue mexer objetos sem tocá-los; que é maior que as picuinhas de seu elenco; que é um ator de verdade e que vai conseguir provar isso a quem quer que seja. Porém, uma frase colada no espelho de seu camarim mostra que não é bem assim: "Uma coisa é uma coisa, não o que é dito dela". Riggan tem medo da crítica. Ele tem certeza de sua capacidade como ator, diretor e roteirista da peça, mas se contorce de medo do que os críticos podem dizer sobre ele. Sua necessidade de admiração, de reconhecimento, não abre possibilidades para o outro lado da moeda, que é a crítica em todas as suas vertentes.

Hoje, a exposição de um ator, de um artista de maneira geral, não se basta nos palcos ou nas galerias: é preciso estar na mídia. Sam, filha de Riggan, em um momento de discussão, diz que o pai não existe: ele odeia bloggers, tira sarro do Twitter e não está no Facebook. É preciso "causar" para ser alguém, para conquistar a notoriedade. Ser trending topic é ter poder, diz Sam. A crítica teatral do New York Times, confrontada por Riggan em um bar, é direta: ele está ocupando um teatro onde deveria estar a verdadeira arte, verdadeiros atores: "Você não é um ator, é uma celebridade", diz ela. Uma celebridade que, por mais que queira negar o passado, vive dele, de seu sucesso como ator de uma série barata de super-heróis. É curiosa a cena em que Riggan caminha por Nova York no dia da estreia da peça e que, dando ouvidos ao Homem pássaro, promove uma série de explosões, com monstros enormes invadindo a rua. É uma crítica ao cinema de entretenimento atual, em que o sucesso se conta pelo número de explosões, armas e perseguições. Riggan podem explodir, ele pode "causar". E, juntando os cacos de tudo o que aconteceu nos dias anteriores à estreia, ele encontra a forma certa de "causar", na cena final da peça. Outra crítica à Academia Hollywoodiana, que adora premiar os atores que fazem grandes sacrifícios físicos?

O fim da peça é o começo de um novo Riggan, que leva multidões ao teatro - fato muito comemorado pelo produtor, que não quer saber de qualidades técnicas, apenas dos números de bilheteria e do tempo que a peça ficará em cartaz. É bem emblemático que, nas cenas externas, o outdoor de O fantasma da Ópera, o musical mais antigo da Broadway, que está desde 1988 em cartaz, domine o campo visual. O produtor quer ser o novo Fantasma da Ópera. Riggan quer ser a mais nova revelação dar artes, um ator com um passado duvidoso, que renasceu nas cinzas do ostracismo para bilhar onde reina a verdadeira arte dramática.

Sobre a técnica de filmagem, ela foi discutida previamente entre Iñarritu e o diretor de fotografia para dar a ilusão de que o filme se passa num plano-sequência único. Alguns cortes são reconhecidos com facilidade. Outros, bem mais sofisticados, podem necessitar uma nova visita ao filme. Mas surge a pergunta se, para nós, que somos apenas apreciadores de uma boa história bem contada, é necessário descobrir as técnicas por trás da produção. Fiz isso em Festim diabólico, do Hitchcock, especialmente após ler Hitchcock Truffault, para ficar mais encantada com o Hitch, mas acredito não ser necessário aqui, quando toda a técnica de produção é outra, bem mais sofisticada e com mais recursos narrativos.


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...