sexta-feira, 5 de junho de 2015

Em Ouro Preto, uma igreja que pede socorro

Retomei a escrito pro Bom Será, que agora está no Medium, essa nova plataforma que conheço há pouco tempo e já considero pacas. Tenho gostado muito de tudo o que leio no Medium. Até usei a plataforma para pesquisas de temas que me deslocam. Há muita qualidade por lá, o que é ótimo. Há quem diga que o Medium vai matar os blogs. Pode até ser, mas não acredito. Acho que as mídias podem correr paralelas pela vida afora, que tem lugar pra todo mundo.

Meu primeiro texto no Medium foi uma matéria sobre uma igreja de Ouro Preto, no distrito de Cachoeira do Campo. É uma graça, com o forro da nave pintado com inspiração medieval. Muito lindo, mas sem verba para restauro e com risco de ser perdido. O link da postagem original é este aqui.


Em Ouro Preto, uma igreja que pede socorro
Igreja de Nossa Senhora das Dores, no distrito de Cachoeira do Campo, precisa de restauro


Foto: Leo Homssi


Era 2008 quando a Igreja de Nossa Senhora das Dores, no distrito de Cachoeira do Campo, em Ouro Preto, deu um sinal. Numa quinta-feira, uma das tábuas do forro se soltou e cai no chão com grande estrondo. A comunidade do entorno se assustou com o barulho. Felizmente, não havia ninguém lá dentro na hora da queda e não houve feridos. Porém, a tábua solta dizia muito: a igreja precisava, urgentemente, de uma intervenção no telhado, para não perder ainda mais o forro da nave e o outro, da capela-mor. A infiltração era grande, já podendo ser vista em várias partes do teto. A decisão foi fechar o templo e batalhar pela reforma.

Dois anos depois, em 2010, um motivo de comemoração: a igreja obteve o tombamento municipal e, em seguida, foi liberado um recurso do Fundo Municipal de Preservação, que possibilitou o conserto do telhado. O trabalho retirou oito caçambas de entulho e mostrou mais: mesmo que uma tábua do forro da nave tivesse se soltado, era o telhado da capela-mor que mais precisava de auxílio. Dele, quase nada foi aproveitado. Com o telhado pronto, a igrejinha pôde, enfim, voltar a ser aberta e a ter missas, que são celebradas uma vez por mês.

Em vez de respirar aliviada com a reforma, que protegeu os dois forros, a comunidade das Dores de Cachoeira do Campo precisou correr para conseguir mais intervenções na igreja. Os projetos elétrico, arquitetônico e de elementos artísticos foram licitados pela Prefeitura e estão prontos e aprovados. Mas ainda não foram captados.

“Como a igreja só tem o tombamento municipal, temos dificuldades em conseguir o patrocínio de empresas e órgãos públicos”,
explica Rodrigo Gomes, morador do distrito e um dos articuladores pelo restauro completo da igreja. A comunidade, a arquidiocese, a prefeitura de Ouro Preto e empresas privadas podem contribuir para o restauro, mas até o momento não houve avanços concretos. O valor total dos projetos está em torno de um milhão de reais.

Rodrigo explica que igrejas e outros bens com tombamento estadual ou federal podem conseguir verbas com mais facilidade, via bancos de incentivo. Foi o que aconteceu com a Matriz de Nossa Senhora de Nazaré, também em Cachoeira do Campo, a primeira igreja brasileira a ser restaurada com recursos do PAC Cidades Históricas. “Sem esses outros níveis de tombamentos, estamos fora da prioridade”, esclarece. Mas ele acredita que, mesmo tendo apenas o tombamento municipal, a Igreja das Dores merece um olhar mais atento das autoridades. “Vendo como ficou a Matriz de Nazaré, a gente queria o mesmo para a Igreja das Dores. Isso dá esperança. Depois de ter batalhado tanto pela Matriz, meu próximo objetivo é conseguir o restauro daqui, mesmo que seja mais difícil”, pontua.

Rodrigo destaca que esta é a primeira igreja com invocação de Nossa Senhora das Dores construída no Brasil. “Encontramos um documento no Arquivo Ultramarino de Lisboa (Portugal) com a petição dos Irmãos das Dores para captarem esmolas a fim de construir a igreja. A Coroa Portuguesa concedeu. A data do documento é de 35 anos antes da data inscrita na cantaria do óculo: 1761”, conta Rodrigo. Depois desta, outras igrejas com a mesma invocação foram criadas no país.

Há uma tradição, não confirmada por registros históricos, que diz que a Igreja das Dores de Cachoeira do Campo foi utilizadas pelos Inconfidentes para fazer suas reuniões e, também, para vigiar o palácio de campo do governador. A casa pode ser avistada do alto da torre. Hoje, funciona ali um colégio de freiras.


Cemitério
O cemitério, ao lado da igreja, é anterior à construção do templo. Isso porque o local foi escolhido às pressas, para sepultar os corpos dos combatentes da Guerra dos Emboabas, que teve o seu apogeu no distrito, em frente à Matriz de Nossa Senhora de Nazaré. Foi chamado de Monte Calvário o alto do morro escolhido para o sepultamento, sem identificação, dos mortos em combate. Posteriormente, foi construído o muro de pedras que cerca a área. A Igreja das Dores foi construída ao lado, alguns anos depois. O cemitério passou a ser responsabilidade da irmandade. Por conta disso, não foi necessário utilizar campas de madeira no interior da igreja, e o chão foi calçado com lajotas de barro cozido. Em duas delas, destaca-se o registro das patas de um cachorro, que provavelmente foram feitas no mesmo local.

Foto: Leo Homssi



Interior
A Igreja de Nossa Senhora das Dores se destaca pela simplicidade. O interior singelo tem elementos bastante simples e, por isso mesmo, harmônicos. O chão de lajotas de barro cozido já informa: é uma igreja mais sóbria, com menos elementos artísticos, tão característicos do período barroco. O púlpito e sua escada, ambos em madeira, também deixam claro que a irmandade responsável pela construção do templo não era rica.

Porém, uma coisa salta aos olhos de qualquer visitante. O forro da nave, que retrata os passos da Paixão de Cristo, do Horto das Oliveiras até a ressurreição, foi pintado por um artista anônimo com inspiração medieval. “Na época, chegaram ao Brasil bíblias ilustradas com imagens medievais. É possível que elas tenham servido de inspiração para quem trabalhou aqui”, explica Rodrigo Gomes. Os quadros foram pintados com esmero e trazem um estilo totalmente diverso do barroco mineiro. Eles terminam com três imagens após a ressurreição de Jesus, que mostram anjos segurando os objetos do flagelo de Cristo (os cravos e a coroa de espinhos) e a toalha que secou o rosto do Messias, onde sua face ficou gravada. Faz parte desse forro a tábua caída em 2008. Ela está guardada, no coro, aguardando o restauro. A reforma do telhado possibilitou o escoramento do forro, o que impede que outras tábuas se soltem.

Com a construção posterior das torres, dois desses últimos quadros da via sacra do forro foram cortados. Apenas uma das torres tem sinos, com data de 1810 e 1898, e somente por ela é possível avistar o antigo palácio de campo do governador.

Ainda na nave, o solitário altar lateral possui retábulo em madeira, imitando elementos artísticos que seriam feitos em madeira talhada e posteriormente dourada, caso houvesse recursos para isso. Em cantaria, apenas duas pias de água benta, ladeando a porta de entrada.

A capela-mor tem uma particularidade, também no forro. Há uma pintura primitiva, vista apenas por meio de dois recortes, já que várias camadas de tinta foram passadas por cima. É possível que o restauro consiga mostrar mais dessa pintura original.

Por cima da tinta há um enorme ex-voto, feito a mando de um fidalgo da região, não identificado. A pintura retrata Nossa Senhora das Dores morena e de sandálias, com o coração transpassado por seis espadas. A sétima é infligida pela própria santa no peito de um fiel que está aos seus pés. Em latim, a inscrição “Consoladora dos aflitos”. No chão, uma tentativa de representar o piso de cerâmica da capela. “Este é considerado um dos maiores ex-votos do Estado”, afirma Rodrigo, apontando para o teto.

Uma das tábuas do teto da capela-mor também caiu, após o fechamento da igreja e antes da reforma do telhado.


Imagem
A imagem de Nossa Senhora das Dores foi construída em roca e pintada, sob as roupas, com finos desenhos de motivos florais. O mesmo desenho está na parte interna do oratório que abrigava a imagem quando ela chegou à igreja. O coração da virgem, como é tradicional na iconografia cristã, é cravejado por sete espadas. A imagem tem os braços articulados.

Quando a tábua do forro caiu, a imagem foi retirada da igreja e está, até hoje, guardada em local seguro e não revelado. Além do risco de danos, com o problema do telhado, ainda há a questão da segurança, contra roubos. Porém, ela volta ao altar em todas as missas que são celebradas no templo. Também é a imagem que sai às ruas em Cachoeira do Campo, durante a celebração da Semana Santa.

Foto: Leo Homssi

  

Devoção a São Judas Tadeu
Quando a comunidade das Dores estava aflita, ansiando pela solução do problema do telhado, foram feitas novenas e encontros de oração. Veio, aí, a decisão de apelar para São Judas Tadeu, o santo das causas impossíveis e desesperadas. Quando a igreja teve o telhado reformado e pôde ser aberta novamente, a devoção a São Judas Tadeu continuou. A imagem do santo foi inserida durante uma cerimônia oficial, devidamente abençoada.


Visitação
A Igreja de Nossa Senhora das Dores de Cachoeira do Campo está fechada para visitação. Porém, é possível agendar com a paróquia, pelo telefone (31) 3553–1796, visitas com acompanhamento dos paroquianos, seja para turistas ou para escolas.

Devido à proximidade com a Igreja Matriz, as missas na igreja são realizadas sempre no quinto sábado dos meses impares, às 19h.

A novena perpétua em honra a São Judas Tadeu é realizada todo dia 28, com a abertura da igreja às 18 h e a celebração às 19h, exceto aos domingos, onde a igreja fica aberta de 15 às 17 hs.


Serviço:

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...