quarta-feira, 4 de março de 2015

Livro: República Paradiso



Assim que esse livro surgiu, me interessei. Afinal, não é todo dia que a sua cidade vira pano de fundo de um romance... e eu procuro sempre ler coisas que trazem Ouro Preto, de alguma forma. Comprei logo que começou a ser vendido na Set Palavras (a melhor livraria do mundo), mas não li de imediato. Há sempre uma pilha de livros por ele o volume foi parar lá. Comecei logo depois da morte da vovó, ainda sem vontade de fazer nada, mas sabendo que era muito necessário voltar logo à rotina. Terminei no dia 31 de dezembro, pouco antes do Ratinho chegar para o nosso modesto reveillon (número reduzido de participantes, com três mega perdas em volta da mesa...)

República Paradiso conta a história de Thomas, um geólogo morador de Nova York e ex-aluno da Escola de Minas de Ouro Preto, que volta à cidade para a tradicional festa do 12 de outubro, acompanhado por uma amiga norte-americana e mulata, apaixonada pelo Brasil. Uma vez na terrinha, Thomas começa a se confrontar com um crime do passado, que abalou a cidade quando ele era estudante: a morte de um adolescente, emasculado, cujo corpo foi deixado na entrada da Igreja de Nossa Senhora Rosário dos Pretos, conhecida como de Santa Efigênia, uma construção feita por negros e cheia de referências à cultura africana. Essa igreja foi reaberta há pouco tempo, após restauro, e está muito linda. Vale  uma visita, pela igreja em si e pela vista que se tem lá do alto da ladeira e que é deslumbrante.

Voltando ao livro, achei a história bem fraca, mas com certo potencial. A trama do assassinato do menino Bentinho, a morte do Padre Anselmo que, na época, foi considerado culpado, e o reencontro dos amigos estão na parte interessante, que poderia ser melhor explorada. O resto da trama é bastante bobo. A personagem feminina, Geena Brown, é tão inverossímil que chega a ser chata. Sua obsessão com o Brasil e com a cultura negra poderiam ser mais legítimas, mas parecem coisa de menina minada, sem propósito. Ela acaba sendo uma personagem clichê, daquelas pessoas que, por ter a alma brasileira, tem samba no pé e quase pira quando ouve bater um tambor, além de ter a sexualidade à flor da pele. Ao fim da história dela, não consegui acreditar que o autor se deixou levar tanto pelo jeito O código Da Vinci de ser. O fato de um dos personagens resolver o antigo crime após bater um papo pra lá de chato com um morto, enquanto ele mesmo está sendo considerado morto, é outra coisa que foi praticamente chupada do Dan Brown, em O símbolo perdido, e que, meodeos, qual a necessidade?

Muitas coisas da história de Ouro Preto parecem ter sido misturadas à trama sem um propósito específico, mas apenas por estarem lá. Tem a tradição das repúblicas e a Festa do 12 (mas a Festa do 12 do livro está um pouco longe de uma festa legítima, em que os participantes ficam só por conta das comemorações); tem congado e o Chico Rei; tem Mariana,  a Catedral da Sé (que também esteve em outro livro chupado do Dan Brown, O código Aleijadinho, em uma situação mais do que inverossímil: um erro de pesquisa) e os seminários; tem a Inconfidência Mineira e seu personagem misterioso, que avisou os inconfidentes que o plano tinha dado errado. Junte-se a isso rituais malucos de estudantes, envolvendo invasão de museus, encenações e praticamente magia negra. Tem ainda visitas dos personagens principais a monumentos e igrejas de Ouro Preto e Mariana e, como não poderia deixar de ser, já que segue-se a cartilha Dan Brown, explicações didáticas que destoam da narrativa.

Resumindo: pra mim, o autor tinha uma ótima história nas mãos, mas se deixou levar pelo apelo da "manufatura Dan Brown" e acabou se perdendo. Lógico que eu adoro ver Ouro Preto nos livros, e o autor levantou muita coisa interessante da história da cidade, de suas lendas e de seus costumes, mas me senti lendo O samba do criolo doido (e eu faria um acréscimo aqui, mas seria spoiler demais, deixa pra lá). Espero que no próximo livro, ele não se deixe levar por fórmulas prontas, porque tem potencial pra fazer muito mais do que seguir o sucessinho do momento.

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Aline, que prefere ser chamada de . Ou de Nine...