quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Livro: O outro pé da sereia



Aê! Finalmente!

Ganhei o livro no início de 2014, como presente do Amigo Secreto na Laje de 2013. Quem me deu foi a Bel, essa baiana linda! Já tinha tempo que eu queria ler, e a Bel foi linda em me dar de presente. Acontece que muita coisa veio em 2014. Logo que ganhei o livro, estava envolvida com um problema que me tirou o sono ao longo do ano e que se materializou justamente em janeiro. Então, coloquei na pilha pra ser lido e comecei, ainda no primeiro semestre. Aí vieram as provas da faculdade e parei a leitura. Depois veio a morte da Tia Ylza e custei a engrenar qualquer leitura. Quando voltei, adiantei bastante a leitura. Aí veio a morte da vovó e custei de novo a pegar. Porém, como estou trabalhando a questão do foco (depois falo sobre isso), uma das minhas metas de janeiro era terminar esse livro.

O outro pé da sereia narra duas histórias em tempos diferentes. A primeira é em 2002 e a outra em 1560. A história de 1560 é baseada em fatos reais, sobre um navio português que sai de Goa, na Índia, para Moçambique. Esse navio transporta uma imagem de Nossa Senhora, em madeira. E a relação dos padres e dos escravos que trabalham no navio com a imagem gera uma série de conflitos, a maior parte deles focada na religião dos brancos versus a religião dos negros.

Em 2002, Zero é um burriqueiro que mora em Antigamente e vê uma estrela cadente caindo na terra. Assustado, ele resolve enterrar a estrela e, ao chegar em casa e contar o fato para a esposa, Mwadia, os dois decidem consultar o curandeiro Lázaro Vivo. O curandeiro manda levarem a estrela pra mais longe da vila e, durante a caminhada, Zero e Mwadia encontram um baú cheio de escritos e uma imagem de Nossa Senhora sem um dos pés. Lázaro Vivo manda que levem a imagem imediatamente para uma igreja. A mais próxima fica em Vila Longe, onde Zero e Mwadia viviam antes de se casar. Zero não quer voltar e Mwadia vai sozinha levar a imagem e se livrar da maldição que, segundo o curandeiro, ela trazia.

É o segundo Mia Couto que li, e gostei bastante. Achei a linguagem bem poética e envolvente. Por outro lado, a linguagem mais metafórica - e a situação em que estava enquanto li - fez com que eu me dispersasse várias vezes durante a leitura, o que não é bom. Mesmo assim, é um livro lindo. E triste pra caramba!

Porque entre as duas histórias e seu cruzamento, o autor fala de temas metafísicos muito pesados. Como a morte, a aceitação da morte, o esquecimento, a mudança de perspectiva, a invenção da realidade. Há uma série de situações em que a tristeza perpassa as situações, mesmo as que tratam de alguma coisa mais cômica ou mais leve.

O que mais me impressionou na leitura foi ela ter sido picada durante o ano e eu ter terminado depois das duas mortes que marcaram tanto a minha vida. Acho que se eu tivesse terminado ainda no primeiro semestre de 2014, não teria sentido com tanta intensidade. Porque o desenrolar das históricas "casou" perfeitamente com o momento do luto que estou vivendo. E o final da história é tão bonito, tão intenso, que não tem como desligar da ausência que estou vivendo agora. Ou seja: por caminhos tortos, foi o livro ideal pra mim, durante esse luto FDP que estou vivendo.

Deu vontade de ler outros livros do Mia Couto... Já li A varanda do frangipani e gostei bastante.
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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...