sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Carta para alguém de 14 anos

Há certos momentos em que “o mundo rodou de repente nas voltas do meu coração”, como diria o Chico Buarque. 2014 teve altos e baixos – mais baixos do que altos. E esse tipo de período é daqueles em que, por mais que haja sofrimento, há, acima de tudo, aprendizado. Como a vida é cíclica, é a terceira vez em minha vida que há uma reviravolta. Por isso – e aproveitando um post da Bah [não encontrei o link, shame on me] que me encantou há algum tempo, resolvi escrever uma carta pro meu “eu” que, um dia, teve 14 anos. Que estava no olho do furacão, na primeira grande virada que vivia.


Parece clichê – e é – que só o tempo cura as feridas. Porém, nada mais certo para dizer agora. Quando se tem 14 anos, inevitavelmente há um mundo enorme pela frente. A ser desfraldado e desfrutado, sorvido às vezes com calma, outras com sofreguidão. Hoje sei que não é assim que o mundo se apresenta na sua idade, mas, de longe, posso afirmar: o tempo é fundamental para que saibamos lidar com o mundo.

Lembro bem de quando tudo aconteceu. Da dor e do sofrimento durante um ano inteiro e de como essas sensações de perda de sentido da vida fez tudo chegar ali, na quase-morte, na necessidade da ausência. Não acho – olhando da posição privilegiada de hoje – que você agiu errado. Penso que era mesmo o caminho natural, o que mais combinou com a sua história de vida. E, ao fim e ao cabo, tudo acabou bem.

Se há conselhos a serem dados – e, sim, sei que agora eles não seriam ouvidos –, eu te digo:

- não se apegue a nada. Nem ao sofrimento, nem às dores, nem às pessoas, nem à vida. É sério: o apego leva a ainda mais sofrimentos e desilusões, e saber dizer “adeus” a tudo é um dos trunfos do mundo;

- escute mais o seu avô. Ele mesmo, o velho senhor de nariz curvado que parece cansado de viver. Quando você tiver mais de 30 anos e viver a terceira reviravolta da sua vida – é verdade, mais duas estão a caminho –, você vai se lembrar quase diariamente de coisas que ele dizia. E vai se arrepender por não ter prestado mais atenção;

- não precisa – não mesmo – tentar agradar a todo mundo. Este é mais um conselho clichê: agrade a você mesma. Isso você vai aprender em poucos anos, mas vai demorar um pouco mais a praticar. Porém, se for possível acelerar esse aprendizado, você não sairá perdendo;

- escute mais seu coração. Sei que durante esse tempo, e além, você tentou agir racionalmente. Não há mal nenhum nisso, claro. Só tente dar espaço à sua voz interior. Pode parecer que ela não é tão sábia quanto a razão. Mas ela deve ter seu lugar;

- acredite: você vai conhecer pessoas que percebem mais a realidade. E isso não quer dizer que você seja louca. Apenas que tem uma forma diferente de ver e de sentir o mundo. Uma dessas pessoas que você vai conhecer vai te chamar de ingênua e, garanto, você não vai gostar. Mas isso não vai impedir a amizade de vocês – vai até fortalecê-la. Porque – e isso é algo que você também vai aprender – amizade de verdade é aquela que aceita, que compartilha, que apoia;

- durante a segunda virada da sua vida, você vai perceber que é capaz de fazer muitas coisas. E aquela voz interior vai gritar. Escute com atenção. O que ela disser vai ser muito útil durante a terceira virada;

- você vai se decepcionar, sim. Com várias situações, com várias pessoas, com os caminhos da vida. O melhor é que todas essas situações trazem um aprendizado grandioso. E, cada vez que vier uma decepção e um aprendizado, você vai se lembrar daquilo que seu avô dizia;

- cultive a saudade. Seja aquela sofrida, seja aquela gostosa. Saudade é saudável;

- cultive também os amigos. Uma das melhores coisas da vida é ter amigos e você vai ter e perder com o passar do tempo. Mas aqueles que realmente valem a pena ficarão. Mesmo que vocês fiquem anos sem se ver. E, não se preocupe, mesmo sendo ingênua, como dirá uma de suas melhores amigas, você saberá escolher a dedo quem realmente merece a sua confiança.


Até o momento, só três grandes viradas. Possivelmente não serão as únicas. Prepare-se: o inesperado é o que tempera a vida.

_______________ 
Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...