quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Livro: Anatomia dos mártires

Anatomia dos mártires foi o segundo livro que li como Leitora Parceira da Set Palavras. O primeiro foi A culpa é das estrelas. Num primeiro momento, achei que foi dos melhores livros que li este ano. Depois, voltei às minhas leituras para comparar e concluí: foi o melhor que li em 2014.

Para ler o texto no site da Set Palavras, clique aqui.



O que mais me atraiu na proposta de ser Leitora Parceira da Set Palavras foi a possibilidade de conhecer livros e autores que, por alguma razão, não estão na minha lista de leituras. Na segunda rodada, podendo escolher entre três obras, e desta vez sabendo de antemão quais seriam, optei por Anatomia dos mártires, de João Tordo, publicado pelo selo Novíssimos, daEditora Leya.
O que me atraiu, além do título, é que o selo publica novos autores que começam um caminho de sucesso. Nunca havia ouvido falar de João Tordo, e o fato dele ser português me interessou. Fora isso, a sinopse fala de um jornalista às voltas com um mistério, que envolve uma mártir da ditadura salazarista. Praticamente todos os ingredientes que me fariam gostar da trama.
O escritor português João Tordo.
O personagem principal não tem nome. Ele narra a história que viveu há poucos anos, quando era jornalista da imprensa portuguesa e, ao viajar com seu editor, este o faz parar junto ao túmulo de Catarina Eufémia, camponesa que foi assassinada pela polícia salazarista durante uma greve, na década de 1950. O editor comenta vagamente a história e diz que visita o túmulo anualmente. Já embalado por muitos goles de álcool, faz declarações que ecoam na cabeça de nosso jornalista. Posteriormente, ele viaja a Berlim para entrevistar o autor da biografia de um homem que se jogou do alto de um prédio com um manuscrito amarrado ao peito. Ao escrever seu artigo, ele une a história do suicida à da camponesa e tece várias críticas à forma como os mártires são criados. A repercussão do artigo é bastante negativa e o jornalista passa a desenvolver uma obsessão sobre a vida e a morte de Catarina Eufémia, procurando decifrar sua vida, sua história, sua militância.
Em meio às questões jornalísticas, amorosas, de pesquisa ou de teorias da conspiração, o autor traz uma série de reflexões sobre o mundo contemporâneo, a economia volátil, a fragilidade das pessoas, dos encontros, das ideologias, dos discursos políticos e sobre a força das apropriações e dos apoderamentos. O estilo de João Tordo é um pouco complexo, com frases mais longa, mas muito bem elaboradas. A história é bastante amarrada e tem momentos de tensão, de reflexão e até mesmo de comédia – um deles envolvendo a mãe do narrador. Enquanto se acompanha a história é possível pensar na vida que se quer levar, nos erros e acertos, nas obsessões e nas coisas que deixamos para lá.
Seguindo o critério do Skoob, cinco (*****) estrelas. Um dos melhores livros que li em 2014.
Em tempo: a história de Catarina Eufémia é real. Após sua morte – foi assassinada com três tiros, pelas costas – tornou-se a figura da resistência portuguesa contra a ditadura salazarista.
Mais sobre João Tordo e seus livros em http://joaotordo.blogs.sapo.pt/
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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...