sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Do tricô

A blusa mais difícil que ela já fez.
Essa é da Lelê. Eu ganhei duas. 


Quem via o tricô da Tia Ylza sempre admirava. Acho que nunca vi alguém colocando defeito ou falando que não era bonito. Como sempre tem quem não goste, deve ter nesse caso também, mesmo que eu não saiba.

A blusa da Lelê em processo


Tia Ylza começou a fazer tricô por necessidade. A mãe dela, minha bisavó Enoe, foi criada por uma mulher prafrentex, que foi muito bem educada e fez questão de que as filhas também fossem. Além de ter professores particulares - coisa incomum na época - vovó Enoe aprendeu o que era considerado básico para as moças da sua idade: costurar, bordar, fazer tricô, crochê, macramê, bordados e todas essas coisas que são tão lindas e tão complexas. Ela se casou com meu bisavô José Procópio, que também era de uma família que valorizada os estudos. Ele era formado em Farmácia e Engenharia e dava aulas em escolas e universidades. Ele era muito novo quando morreu. Deixou sete filhos. O mais velho, vovô, tinha 9 anos. Tia Ylza tinha sete e o mais novo, Tio Almyr, tinha três. Eram 1927 e não havia nenhum tipo de seguridade social. Assim, vovó Enoe estava sozinha no mundo, com sete crianças. Sua mãe veio morar com ela e trouxe a Tia Olga. As duas passaram a ajudar vovó Enoe, mas só isso não foi possível.

Fazendo pompom


Como sabia costurar, fazer tricô, crochê e todo o resto, vovó Enoe começou a oferecer o serviço para quem pudesse pagar por ele. Meu avô, em paralelo, foi começar a trabalhar, como ajudante de um comerciante de Ouro Preto. Foi aí que Tia Ylza entrou na história. Vovó Enoe começou a ensiná-la a fazer tricô. A começar a pôr linha na agulha, a fazer acabamentos com biquinho de crochê. Como era muito boa no que fazia, vovó Enoe começou a ter muitas encomendas e Tia Ylza, aos sete anos, começou a ajudar e a aprender. Foi vovó Enoe que ensinou que não bastava estar bom. Como o trabalho seria vendido, deveria estar perfeito. E Tia Ylza teve que recomeçar e refazer várias vezes.

Esse gorrinho foi presente pra Aninha


Aos poucos, Tia Ylza foi tomando a frente e fazendo o tricô mais complexo. Ela contava que, na escola, uma professora pediu um trabalho em tricô para o dia seguinte. Como já sabia fazer há tempos, ela fez um par de sapatinhos de bebê. A professora deu zero. Duvidou que era ela quem tinha feito, já que o trabalho estava perfeito. Tia Ylza se defendeu e a professora a desafiou: queria vê-la fazendo. Na mesma hora, linha e agulha a postos, saiu o sapatinho. A professora ficou sem graça e virou freguesa.

O sapatinho feito na aula, pra provar que ela sabia, era desse modelo aí


O tempo passou, Tia Ylza e Tia Leda (que também era uma tricoteira de mão cheia) arrumaram trabalho na Central do Brasil, meu avô continuou a trabalhar e a estudar até se formar em Farmácia, os outros irmãos seguiram suas vidas. As duas não precisaram mais fazer tricô ou costura para fora. Como a Tia Ylza passou a falar, "só faço para dentro", só para a família e os amigos.

Teste de um gorrinho em forma de gatinho


E muita gente ganhou peças feitas por elas. Fui privilegiada nesse sentido, claro. Desde bebê, com um enxoval lindo, cheio de detalhes. Muitas blusas, pulôveres, suéteres, cachecóis, gorros, luvas e tudo o mais. Ultimamente, ela estava tentando fazer um elefante de tricô pra mim. E uma blusa pra Paulo. O elefante e a blusa ficaram inacabados. A blusa estava em cima da cama dela, com a receita ao lado, esperando só ela voltar para continuar o trabalho.

Meu sapatinho preferido da vida, modelo "Trenzinho"


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...