terça-feira, 28 de outubro de 2014

Citações 72

De Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi:

A primeira coisa que nos choca lendo Lolita - já na primeira página - é o modo como a menina é descrita como uma criatura de Humbert. Nós somente a vemos em relances passageiros. "O que eu possuíra loucamente", ele nos informa, "não fora ela, mas a minha própria criação, outra Lolita fantasiosa - talvez mais real que Lolita... sem vontade, sem consciência - de fato, sem qualquer vida própria". Humbert enjaula Lolita primeiro pelo nome que lhe atribui, um nome que se torna eco de seus desejos. Ali, na primeira página do livro, ele prefigura vários nomes, nomes para diferentes ocasiões, Lo, Lola e, em seus braços, sempre Lolita. Também somos informados que seu "verdadeiro" nome é Dolores, a palavra espanhola para dor.
Para reinventá-la, Humbert precisa tirar de Lolita a história dela mesma, e substituí-la por sua própria, transformando Lolita na reencarnação do seu jovem e irrealizado amor perdido, Annabel Leigh. Não conhecemos Lolita diretamente, mas por meio de Humbert, e não por meio do passado dela, mas por meio do passado, ou do passado imaginário, do narrador/molestador. 

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...