terça-feira, 21 de outubro de 2014

Citações 71

De Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi:

Nós que vivíamos na República Islâmica percebíamos tanto a tragédia quanto o absurdo da crueldade a que éramos submetidos. Nós tínhamos que achar graça em nossa própria miséria para sobreviver. Também reconhecíamos instintivamente o poshlust - não somente nos outros, mas em nós mesmos. Essa era a única razão pela qual a arte e a literatura se tornaram tão essenciais para nossas vidas: não eram luxo, mas necessidade. O que Nabokov capturou foi a textura da vida numa sociedade totalitária, onde se está completamente sozinho, num mundo ilusório, cheio de falsas promessas, onde não se pode mais diferenciar entre seu salvador e seu carrasco.
(...)
Fosse lá quem fôssemos - e realmente não é importante a que religião pertencíamos, se queríamos usar o véu ou não, se observávamos certas normas religiosas ou não -, tornamo-nos a fantasia dos sonhos de outras pessoas. Um implacável aiatolá, um autoproclamado filósofo-rei, chegou para dominar nossa terra. Ele chegou em nome de um passado, passado que lhe havia sido roubado, afirmou. E agora ele queria nos recriar à imagem daquele passado ilusório. Serviria de consolo ou gostaríamos de lembrar que o que ele nos dez foi o que permitimos que fizesse?


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...