domingo, 7 de setembro de 2014

Esperando virar saudade



Houve um tempo em que você gostava muito de sete de setembro. Foi antes, quando ainda havia vaidade, cabelos bem cuidados, muitas bijuterias e não sei quantos pares de sapatos de salto alto. Eu me lembro bem, como era sempre uma festa. Sempre doces e presentes. Sempre alegrias. Seu aniversário, um dia feliz.

Aí veio a morte do tio Yvan, exatamente no dia sete de setembro. Ele era pracinha e teve um ataque cardíaco ali, durante o desfile cívico. E você se fechou.

Minha memória se confunde. Não lembro se foi em 1986 ou em 1987. Só sei que fomos orientados a nunca mais te desejar feliz aniversário. Não tinha como ser um dia feliz, já que seria sempre tempo de relembrar a morte do seu irmão. Junto com o luto do Tio Yvan vieram outros encerramentos. Não mais natais felizes, não mais sorrisos em certas épocas do ano. Mas mesmo com a tristeza reinando, você se manteve forte.

Foi forte o suficiente para ficar do lado de Tia Leda durante todo o tempo em que ela sofreu, sem poder caminhar e, mais ainda, depois do AVC. Vi você chorar muito, mas também te vi forte, nos chamando sempre que precisava de apoio. Mas a Tia Leda era frágil e morreu há sete anos. Exatos nove dias depois de sete de setembro de 2007.

Quando a Tia Leda morreu, achei que você não ia suportar. E fiz um pacto comigo mesma de não te abandonar nunca. Acho que consegui cumprir. Estive presente nesses sete anos. Falei besteira, te fiz rir, te fiz defender o Leo de mim mesma - você sempre ficou do lado dele, não importava qual o assunto. Vi praticamente cada dia da sua vida. Sabia de suas visitas, do que você comia, do que bebia, o que fazia (e sempre incluí demandas de tricô na sua lista do que fazer). Meu coração está tranquilo com relação a isso: estive sempre do seu lado, em especial nos últimos sete anos.

Mas não está tranquilo com relação ao resto.

Era 22 de agosto quando eu deixei você, te dei um beijo e prometi voltar no dia seguinte. E fiquei de te dizer qual era aquela palavra que eu esqueci enquanto conversávamos. Eu estava pronta para voltar à sua casa e te contar, entre risadas, que a sua memória era muito melhor que a minha. Iria logo depois do almoço, como sempre. Mas não tive tempo.

Eram 11h35 quando tocaram a campainha lá de casa. Era o empregado da quitanda dizendo "Dona Ylza caiu na Ponte dos Contos". Eu larguei pedaços de uma melancia num prato de sobremesa, corri no quarto, troquei os chinelos por um tênis, peguei a bolsa e saí. O garoto ainda me disse pra correr, que ele fecharia a porta de casa. E assim eu fiz.  E foi aí que o meu mundo começou a ruir. Porque, ainda na praça do cinema encontrei o Renato correndo em minha direção. E o fato do Renato ficar do meu lado o tempo todo já me mostrava que o seu tombo não tinha sido simples.

Quando eu te vi no chão, cercada de pessoas, com uma senhora fazendo massagem cardíaca em você, eu só pensava em como você estaria constrangida por estar ali, exposta, com uma pessoa estranha manipulando seu corpo. E chorei em desespero, porque eu não queria isso pra você. E porque sabia que, se você pudesse escolher, também não teria optado por isso. A moça que te atendia me disse que você estava morrendo. Foi duro demais ouvir. Chamei os bombeiros, outras pessoas já tinham chamado o Samu. O Renato tentou me fazer voltar pra realidade, e foi comigo à sua casa buscar seus documentos. Ele me lembrou de pegar uma camisola, mas eu não encontrei e, assim, peguei o primeiro vestido que vi pela frente.

De volta à rua, fiquei sabendo que a moça que te atendia conseguiu fazer seu coração voltar a bater. E o Samu e os bombeiros, estavam lá, providenciando sua remoção. Me sentei no banco da frente da ambulância, tentando ouvir alguma coisa, tentando captar alguma informação. TCE e PCE eram frequentes na boca dos paramédicos. O médico me disse: você teve um traumatismo craniano sério. Era bem provável a necessidade de uma cirurgia. Mas não tinha vaga na emergência do hospital e precisamos ir para a UPA. E lá você teve assistência de mais três médicos. Mas seu coração não conseguia reagir. Foram mais quatro paradas cardíacas - uma delas eu assisti pela fresta aberta da porta da emergência.

Foi o Renato quem me tirou de lá, enquanto eu ligava como louca pro Leo, pro Paulo, pros meus irmãos. Eu queria ter a minha família por perto - e você é minha família, sempre foi. Queria você comigo, queria estar ao seu lado, segurar a sua mão, te confortar. Queria dizer que estava tudo bem, que você ia sair dessa. Mas não deu. Quando me deixaram entrar na sala de emergência já não tinha mais o que fazer. Você não reagia mais. Não havia vida no seu olho aberto.

Não foi a despedida que eu imaginei. Não foi fácil ver seu rosto inchado pela queda, os olhos sem vida, a cabeça machucada com sangue coagulado. Não foi fácil entender que você estava me deixando. E foi o Renato, mais uma vez, que me tirou de perto de você. Por mim, eu ficaria ali até o fim. Mas os médicos não queriam, e o Renato estava certo. Seria pior se eu ficasse lá, lutando pra entender e guardando na memória uma imagem sua que eu não quero ter.

Dessa vez, não precisei escolher a urna. Fiz isso com a Tia Leda e foi a pior experiência que tive na vida. Por outro lado, precisei escolher o terço que você segurou. E o vestido que eu peguei correndo na sua casa foi o que te vestiu. Fiquei do seu lado lá no velório o máximo de tempo possível. Ajudei a fechar a urna. Segui o féretro à pé. Fiquei ao lado da sepultura enquanto jogavam terra por cima. E me senti a pior pessoa do mundo ao te deixar lá, sozinha. Leo me abraçava e me apoiava, mas eu ainda me sinto absurda por não estar do seu lado agora.

Você sempre esteve num lugar especial na minha vida, e eu sempre fiz questão de falar isso pra você e pra todo mundo. Já até contei aqui como a minha primeira experiência de amor veio com você e com Tia Leda. Você duas e a vovó ocupam, de fato e de direito, o lugar que sempre foi destinado a uma mãe que não houve. Tive muita sorte de ter vocês três na minha vida. E hoje eu choro, me desespero, me revolto por ter perdido uma das minhas mães.

Hoje é sete de setembro. É seu aniversário. Se você estivesse aqui, faria 93 anos. Hoje eu não iria à sua casa, em respeito ao seu luto pela morte do Tio Yvan, justamente no dia em que você comemorava seus anos de vida. Era assim que você queria.

Você me deixou no dia 23 de agosto. Exatamente um mês antes do meu aniversário... Não quero sofrer ao me lembrar de você. Quero que esse tempo ruim, dolorido, passe logo. Estou aqui, tentando ser paciente, esperando que tudo isso se transforme em saudade. E que seja sempre assim: uma saudade linda.

Amor desde sempre

Em tempo: é preciso sempre agradecer.
- À Dona Marta, a senhora que acudiu a Tia Ylza na rua. Ela é socorrista em Curitiba e estava em Ouro Preto para a formatura do filho. Agradeço pelo socorro e pelo desprendimento;
- Ao garoto que foi lá em casa me chamar. Não sei seu nome, só sei que sou eternamente grata;
- Às equipes do Corpo de Bombeiros, do Samu e da UPA que cuidaram com muito carinho da Tia Ylza, fazendo o que foi possível.

- Ao Renato, que sempre foi chamado pela Tia Ylza de "meu amigo Renato". Pelo apoio irrestrito, por ter ficado do meu lado até o fim, por ter sido a pessoa que me fez ter um pouco de racionalidade num momento tão difícil;
- À Creusa, que me viu na ambulância a caminho da UPA e foi imediatamente para lá, também ficando ao meu lado até a retirada do corpo da Tia Ylza, enquanto deveria estar em casa recebendo seus familiares, já que era a comemoração do seu aniversário. Solidariedade e desprendimento eu aprendi na prática, com a Creusa;
- À Fioca, grande amiga da Tia Ylza, que também foi para a UPA e me deu muito apoio.
- À Conceição, que foi enfermeira da Tia Leda e visitava a Tia Ylza todo sábado. Que esteve com ela pela manhã e cuidou do corpo, lavou, vestiu, arrumou e conseguiu deixar Tia Ylza com menos hematomas;
- À Martiniana, que estava na UPA com o filho febril e, mesmo assim, foi me apoiar.

Vocês (Renato, Creusa, Fioca, Conceição e Martiniana) foram a família que eu tive durante as três horas entre a queda da Tia Ylza e a sua morte. Sempre afirmei que amigos são a família que a gente escolhe. Mas também recebemos uma família da vida. Serei eternamente grata.

- Ao Leo, que adotou a Tia Ylza, que sempre foi extremamente carinhoso com ela, que sempre buscava levar um presente, um sorriso, uma história pra ela. Não é à toa que a Tia Ylza gostava tanto dele;
- Ao Paulo, que sempre esteve lá, com ela. Ele sempre foi o sobrinho favorito, e mereceu todo esse destaque.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...