sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Das coisas estranhas da morte

Muita coisa estranha acontece quando alguém morre. Desde que a Tia Ylza morreu, tenho reparado em várias coisas que antes me passavam despercebidas ou eram indiferentes.

- algumas pessoas entraram no velório sem nem saber quem ela era. Passaram pela capela-velório, viram que havia movimento, entraram, olharam pro caixão e vieram nos perguntar quem era, por que tinha morrido, qual a nossa relação com ela;

- uma pessoa entrou lá e perguntou se "o professor Ney ainda vai chegar?". O detalhe é que meu avô morreu há 21 anos. Depois o cara disse que se confundiu e se mandou;

- outras pessoas entraram lá e, ao chegar perto do caixão, sopraram os pés da minha tia. Não entendi o motivo e nem quis perguntar. Mas achei muuuuuuito estranho;

- o moço que toma conta da capela-velório colocou um copinho com sal embaixo do caixão. Segundo ele, era para espantar moscas e para evitar que o corpo inchasse. Um copinho de café cheio de sal não vai suportar a umidade de uma sala, moço. E nem é capaz de espantar moscas. Mas diz a tradição que tem que ser feito, vamos lá fazer, então;

- algumas pessoas nos param na rua e, sem o menor tato, falam coisas que não queremos ouvir. Umas que eu sei que não gostavam dela ou de quem ela não gostava. E que contam histórias que sabemos ser mentira. Uma dessas pessoas até me disse que passou de carro por Tia Ylza na rua, num determinado local e em determinada hora em que: 1) a rua estava interditada porque as ambulâncias estavam socorrendo a tia. 2) ela não passou por aquele ponto da rua em direção à sua casa porque caiu 200 metros antes. Fico me perguntando: qual a necessidade de mentir?

- quem fica acaba encontrando muita gente boa pelo caminho. A maior parte das pessoas que foi ao enterro e ao velório era conhecida. Com muitas delas eu convivi. Uma pequena parte não conhecia a Tia Ylza, mas foi em solidariedade à família. Uma coisa que eu esperava que acontecesse, mas nnao com a intensidade que foi. Pessoas que ficaram lá conosco durante a noite e durante o dia do velório, dando um apoio que nem sei nomear. Essas pessoas têm minha gratidão eterna;

- muito estranho é conseguir falar com uma pessoa superimportante pra Tia Ylza apenas 24 dias depois do falecimento. E foi por acaso que consegui o telefone da Lea Leda e consegui falar com ela. Choramos juntas, choramos muito. A dor foi reavivada - ela está aqui, me machucando, o tempo todo -, mas veio junto a uma gratidão imensa pelo carinho que a Lea Leda sempre teve com a minha tia.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...