sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Cartas e fotografias

Sempre que um bicho-carpinteiro vem me sacudir e me mostrar a necessidade de colocar coisas em ordem, eu me lembro da música Tendo a lua, dos Paralamas do Sucesso:




Ela começa assim:

Eu hoje joguei tanta coisa fora
Vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias, gente que foi embora
A casa fica bem melhor assim.


Tenho pensado muito nessa parte da música ultimamente. Porque estou "trabalhando" na casa da Tia Ylza. Mexendo nas coisas dela. E me sinto muito mal por isso. É como se eu estivesse invadindo o espaço dela - algo que ela preservava muitíssimo bem. Todos os dias em que vou lá peço desculpas a ela pela invasão.

É difícil decidir por outra pessoa o que deve ser guardado, doado, presenteado ou jogado fora. Há coisas que eu sei que ela gostaria de guardar - tanto que guardou -, mas que não fazem mais sentido. Outras, nem sob tortura sairão de perto de mim.

Encontrei muitas fotos. Da família, de amigos, de comemorações, de passeios. Muitas com dedicatórias. Algumas delas ficavam numa caixa, que foi presente da Lelê. Essas eram as que ela mais gostava. Outras estavam em gavetas e envelopes. Encontrei um álbum com muitas fotos de primos quando bebês. Hoje, estão adolescentes.

Cartas, muitas cartas recebidas. Uma pasta, só com cartas minhas pra ela. Coisas da época em que eu comecei a rabiscar papel e que escrevia o "A" do início do meu nome quase maior que a folha. Desenhos, declarações de amor, recortes, dobraduras. Tudo organizadinho. E separado dos demais. É uma medida de amor ou não é?

Entre essas cartas minhas, encontrei uma da época da minha crisma. Tia Ylza sempre foi muito especial pra mim, mas não foi minha madrinha de batismo. Se, na época, eu pudesse escolher, teria sido ela. Como não foi possível, a escolhi para a minha crisma. Porém, ela estava doente e não pode ir a BH. Na carta, eu digo que tudo bem ela não ir. Eu teria outra madrinha (a minha amiga Lu), mas enfatizava que a Tia Ylza seria sempre a minha madrinha. "De batismo, de crisma, de casamento, da vida". Eu tinha 15 anos quando escrevi essa carta. E nem me lembrava mais disso.

O fato é que, quando me casei, foi a Tia Ylza a primeira pessoa a saber e a ser convidada. E a primeira pessoa a apoiar nosso casamento secreto. Além disso, claro, ela estava lá como nossa madrinha. E foi, toda linda, com uma blusa branca com um trabalho de crochê feito pela mãe dela. E ainda um camafeu de família, com a foto do seu pai.

Olha ela, toda sorridente, no nosso casamento

Como ela sempre foi apaixonada pelo Leo, tenho certeza que o nosso casamento foi um dia muito feliz pra ela.

Além da pasta com as minhas cartas, uma outra coisa que eu vou levar pra vida é outro pacote de cartas. Eu já tinha comentado sobre uma dessas aqui. É a carta que meu bisavô José Procópio escreveu para esposa, minha bisavó Enoe (não, você não leu errado). Foi a última carta escrita, ele morreu dias depois. Tia Ylza, quando me mostrou a carta e me contou essa história, tinha dito que era a única que tinha sobrado. Posso estar enganada a esse respeito - até porque a minha memória não é lá uma Brastemp (#velha) -, mas é disso que me lembro.

Acontece que achei um pacote cheio de cartas. Dele para ela, consegui identificar ao abri-lo.

Na hora, comecei a chorar. Sim, ando super chorona, depois desse mês de ausência da Tia Ylza. Não tive coragem de abrir o pacote e ver se havia cartas dela pra ele ou de ler qualquer uma delas. Trouxe pra casa e guardei.

Quando comentei com a vovó sobre as cartas, ela me perguntou se eu não queria ler as que meu avô e ela trocaram durante os três anos de namoro e o começo do casamento. E sim, essas eu tive coragem de ler. São de uma beleza, de uma leveza... descobri um novo avô. Para os dois conjuntos de cartas, estou pensando em algo que os preserve. No mínimo, escaner e criar um arquivo digital. Quem sabe, um álbum. Vou trazer pra cá também.

Enquanto isso, vou revirando a casa que, ao contrário da música, não está nem um pouco legal estando vazia.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...