sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Se fosse amanhã

Acho que todo mundo passou por algum momento de achar que valia a pena morrer. Eu tinha uns 12 anos quando vivi o meu. Não era vontade de me matar nem nada, só de morrer. Sei lá porque eu tinha esse sentimento. Ele era bem presente e ainda era alimentado... eu lia muito os poetas românticos da segunda fase, a mais sombria. Acabei descobrindo uma poesia de Álvares de Azevedo que ficou sendo minha melhor amiga. Por anos ela ficou anotadinha num papel, e eu lia quase que diariamente. Ela é assim:

Se Eu Morresse Amanhã! 
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!


Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!
 

Que sol! que céu azul! que dove n'alva
Acorda a natureza mais loucã!
Não me batera tanto amor no peito 

Se eu morresse amanhã!
 

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!


Eu achava isso lindo! Ainda bem que passou. 

Lembrei dessa poesia hoje, depois de pensar que, se eu morresse amanhã, morreria muito, mas muito feliz. Porque muita coisa mudou. Com 12 anos eu não sabia direito quem eram as pessoas que me cercavam, nem tinha consciência do tamanho do mal que elas me faziam. Não sabia o que queria da vida, só tinha certeza que queria mudar. Talvez fosse por isso que morrer amanhã fosse uma coisa tão sedutora. 

Hoje, tenho tanta coisa boa pra contar, tantas barreiras superadas, tanta coisa ruim deixada pra trás. Tenho, praticamente, a vida que sempre sonhei: um companheiro legal, que é realmente companheiro; um trabalho que me dá muito prazer (e umas dores de cabeça de vez em quando); tem a Cuca e a vovó, tem os amigos que eu fiz na vida, e que eu posso encher a boca pra chamar de meus, tem as pequenas vitórias que vou conseguindo dia a dia. Se eu morresse amanhã, morria realizada. Claro que ainda falta muita coisa pra realizar, mas o principal tá aí, e eu consigo sorrir só de pensar. 

Aí, fiquei pensando na poesia que substituiu esse o Álvares de Azevedo. Foi uma lindíssima do Cassiano Ricardo, que foi copiada dois anos depois e ficou na primeira página dos meus cadernos durante todo o período do 2º grau.

Competição 

O mar é belo.
Muito mais belo é ver um barco no mar.
O pássaro é belo.

Muito mais belo é hoje o homem voar.
A lua é bela.

Muito mais bela é uma viagem lunar.
Belo é o abismo.

Muito mais belo é o arco da ponte no ar.
A onda é bela.

Muito mais belo é uma mulher nadar.
Bela é a montanha.

Mais belo é vê-la de um último andar.
Belo é o azul

Mais belo o que Cezanne soube pintar.
Porém mais belo

que o de Cezanne, o azul do teu olhar.
O mar é belo.

Muito mais belo é ver um barco no mar.

Muito adequado, né? Substituir uma coisa tão negativa por uma tão bacana, que exalta, justamente, as conquistas do ser humano. A parte que eu mais gosto é a que fala do Cezanne, que é um dos meus pintores favoritos, e que eu só conheci por conta desse poema. 

Será que, na mudança de "poema favorito", eu comecei a mudar?

Amanhã seria muito mais bonito ver Aline dançar. Né?


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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...