sexta-feira, 4 de julho de 2014

Um presente

Eu tinha uma vida bem diferente antes de 2001. Era tão diferente que parece outra vida, um passado tão distante que nem parece ter sido meu. E nesse passado tinha a Vanessa.

Conheci a Vanessa em 1993. Entrei numa escola nova, numa turma nova, onde ninguém se conhecia. Eu sempre fui travada e preocupada, principalmente com relação aos primeiros-dias-de-aula. Imagine isso numa escola nova... Entrei na sala, já relativamente cheia, e achei um lugar perto da janela. E perto da Vanessa. Começamos a conversar logo e acho que não paramos nunca mais. Foi uma ligação imediata, com muita cumplicidade. Trocávamos cartas nas férias e bilhetes enormes e engraçadíssimos durante as aulas. Um dia, a Thati chegou e entrou nas nossas vidas também. Mas a Vanessa sempre foi diferente, sempre foi única. Estudamos juntas do primeiro ao terceiro ano do ensino médio. Nos encontramos algumas vezes durante o ano em que fizemos cursinho. Mantivemos conversas e cartas durante a faculdade. Ela foi à minha formatura. Eu fui à dela. Fui também ao casamento dela, um momento muito feliz pra mim.

E aí veio 2001, o ano que mudou o rumo da minha vida. Foi um ano de rompimentos. E de muita coisa nova. A Vanessa estava lá. Ela foi a primeira pessoa pra quem liguei quando instalaram o telefone no apartamento onde eu morava. Lembro que ficávamos horas ao telefone, sempre com muita coisa pra conversar, sempre muita coisa pra contar.

Não me lembro exatamente quando perdemos contato. Envolveu um celular meu que apagou todos os meus contatos (e eu não tinha um back-up no mundo físico), um e-mail que nunca era respondido e só silêncio. Durou muito esse silêncio. De certa forma, aprendi que a Vanessa fazia parte de um passado que eu queria esquecer. Não que ela fosse algo ruim do passado. Ela estava na parte boa. E pagou o pato. Assim como outras pessoas daqueles tempos, de quem eu não era tão próxima, mas que também ficaram pelo caminho. O Otávio, sempre me provocando, me perguntava volta e meia da Vanessa, "aquela sua melhor amiga que você não vê há dez anos".

Um dia, a Vanessa encontrou meu e-mail (que já não era aquele de antigamente - o dela também não era). Não sei descrever a emoção que senti ao ver a mensagem com o nome dela, ali, na caixa de entrada. Finalmente, voltamos a nos falar. Muito a ser dito, muito a ser ouvido. Mas o encontro físico não vinha.

E a Vanessa ficou grávida. E o Tomás nasceu. E esse menininho não tem noção da emoção que senti ao ver suas primeiras fotos. Não sabe (mais um dia saberá) que eu chorei muito com a emoção de ver o filho da minha amiga mais querida ali, no suporte de uma tela de computador. Faltava, é claro, vê-lo ao vivo.

Um sábado desses, fui a BH para um casamento. E fui cedo pra casa da Vanessa. A casa que permeou nossas conversas quando ainda era um projeto, negociado para se tornar realidade. Enquanto subia à pé a rua onde ela mora, muitas coisas se passaram sobre a minha cabeça. A mais importante delas é se eu conseguiria conversar feito gente, se eu não ia morrer de vergonha por ter sido negligente por tanto tempo. E quando toquei a campainha e o Ronan abriu a porta, o Nestor veio todo lindo abanando o rabo; quando entrei por aquela porta e vi a Vanessa no quarto, amamentando o Tomás, tão linda, tão serena... foi como se o tempo que passamos sem nos ver se apagasse. Foi como se não existisse o hiato que se passou. Tudo, tudo, tudo parecia nos remeter ao tempo de sempre, na escola, quando a conversa vinha fácil e tínhamos mil assuntos o tempo todo. Como se nada tivesse mudado.

Meus planos eram passar, no máximo, uma hora lá. O Tomás tem dois meses, eu não queria atrapalhar a vida dos três. Mas fiquei cinco horas (juro, cinco horas) lá. Pareceram cinco minutos. Sendo quem eu sou, estaria me sentindo muito mal por ter tomado tanto o tempo dele. Mas, não. Recebi um presente enorme da Vanessa: passar as cinco horas mais agradáveis dos últimos tempos com duas pessoas que eu amo e admiro e com um pacotinho lindo, muito amado, que fez essa tia aqui quebrar barreiras. Nunca peguei no colo um bebê tão novinho. Não levo jeito, tenho medo de machucar. E veio o Tomás pro meu colo, me provando, com seus dois meses de vida, que eu posso, sim, ser capaz de retomar contatos, de carregar crianças, de segurar a emoção e de recuperar, daquela vida terrível pré 2001, o que havia de bom e que fazia com que eu me sentisse gente.

Obrigada, Vanessa, por insistir; por fazer parte da minha vida.

_______________
Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...