sexta-feira, 11 de julho de 2014

A dor de 1986 e a de hoje

Foi em 1985 que eu comecei a entender o que é futebol. Contei aqui como foi que conheci meus vizinhos e como o primeiro papo entre nós envolve futebol e a escolha do meu time do coração, o Atlético Mineiro. Foi nessa época que comecei a jogar futebol com os meninos do prédio e não, eu nunca joguei bem. Mas sempre gostei de jogar. Mesmo que eles pegassem leve comigo no começo (mas depois, me tratavam de igual pra igual). Futebol sempre foi uma paixão. E me abriu as portas pra gostar de outros esportes. Na verdade, pra gostar de quase todos.

Aí veio a Copa de 1986. E a meninada do prédio estava toda em polvorosa. Porque era futebol, porque era Copa, porque era o Brasil jogando. E o Brasil perdeu. Pra França. Nos pênaltis. Depois do Zico ter errado um pênalti no tempo normal. Sócrates errou uma das cobranças finais. E o Brasil perdeu o jogo e deu adeus à Copa, que foi da Argentina, daquela vez.

Por que estou me lembrando disso agora? Porque, naquele dia, há quase trinta anos, eu achei que a culpa era minha. Acabou o jogo, chorei, chorei, chorei e fui pro playground do prédio, tentando me esconder e controlar o medo, porque eu tinha certeza de que logo logo alguém vinha me buscar pra exigir explicações. Ao mesmo tempo em que me achava culpada, eu não conseguia definir o motivo. O quê, afinal de contas, eu tinha feito de errado pra fazer o Brasil perder o jogo? Só sabia que eu tinha feito alguma coisa, que a culpa era minha.

Muitos anos depois, quando já fazia análise, comentei com a Flávia esse sentimento de culpa. Claro que, com mais de vinte anos transcorridos, foi mais fácil entender o motivo de todo aquele medo, de toda aquela culpa. Naquele período da minha vida não havia outra alternativa a não ser sentir culpa e medo. Porque tudo me levava pra isso. Medo da violência física e emocional que se repetia diariamente; culpa por ter causado problemas em casa (mesmo que fosse deixar um lápis fora do lugar, todos os irmãos sofriam), no playground (em geral, a gente não podia gritar quando brincava naquela imensidão que era o play do prédio; também era proibido se machucar), na escola (qualquer nota que não fosse a melhor).

Comparando com a derrota de 7 a 1 na Copa de 2014, dá pra tirar algumas conclusões. Talvez, a principal é que a gente cresce e aprende a separar as coisas. É melhor perder de 4 a 3 nos pênaltis do que de 7 a 1 no tempo normal. É melhor entrar no campo de igual pra igual do que se achando superior. É melhor saber lidar com crianças e despejar suas frustrações em outro lugar. É melhor ter acompanhamento psicológico do que tentar lidar com medo e culpa sem ajuda. É melhor saber olhar pra trás e ver que o que passou, passou, do que ainda reviver os fantasmas do passado.

Meu sonho é que não haja uma criança, hoje, que se sinta culpada ou com medo, como eu me senti há alguns anos. Que os pais, enfim, entendam e executem seus papeis como pai, e não como carrascos.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...