quarta-feira, 4 de junho de 2014

Livro: O visconde partido ao meio



Acho que nunca falei do Italo Calvino aqui. Pena... É um autor de quem gosto muito. Mesmo tendo lido poucas coisas dele. O primeiro que li foi Cidades invisíveis, que é uma graça. Uma homenagem às viagens de Marco Polo e a descrição incrível de cidades que podem, muito bem, existir. É como viajar sem sair de casa, com um gosto a mais, por conta das descrições incríveis do autor. Depois, li Se um viajante numa noite de inverno, um livro incrível que fala de literatura, de escrita, de estórias, de técnicas e de muitas coisas, que recomendo pra todo mundo que tem vontade de escrever. E o último, O cavaleiro inexistente, uma fábula linda sobre coragem e amor.

Depois de termos livro Bukovski no Clube de Leitura, conversamos sobre as novas leituras. O Valter disse que estava lendo o Se um viajante numa noite de inverno e acabamos concordando que ler Calvino seria uma boa. E o escolhido foi O visconde partido ao meio.

Nossa, que livro bacana! A história é contada por um narrador sem nome e sem lugar - ele é o filho bastardo da primogênita do Visconde Aiolfo, órfão de pai e mãe. Por ser um filho ilegítimo, não é tratado como "da família" e nem tem lugar entre os servos. Ele vaga pelo castelo e pelos campos procurando aventuras, como capturar fogos-fátuos (o que me fez lembrar de Aventuras de Xisto, meu livro favorito da infância, em que a comida dos bruxos era feita com fogo-fátuo). O narrador conta a história de seu tio, o visconde Medardo de Terralba, que vai à luta contra os infiéis na Boêmia, acompanhado por um escudeiro, Curzio. Sem experência em batalhas e com muita vontade de ser herói, Medardo acaba se metendo na frente de um canhão inimigo.

Ao fim dessa primeira e única batalha, quando os empregados vão buscar os enfermos no campo de guerra, encontram a metade de Medardo, como se a bala de manhão o tivesse partido ao meio: só tem um olho, meio nariz, meia boca, meio tudo; apenas a parte direita de seu corpo. Levado à enfermaria, é tratado e mandado de volta para casa. Ao voltar a Terralba, a metade direita se mostra a mais cruel de todas. Como se, daquele lado, só habitasse a maldade de Medardo. Tanto os habitantes do castelo como os do campo precisam se adaptar a esse novo personagem, que não pensa duas vezes antes de fazer qualquer tipo de maldade.

O livro é bem curtinho, rápido e fácil de ler. Além do desenrolar da história, que envolve maldade, bondade - os dois em excesso -, amor e muita fantasia, traz a discussão sobre as personalidades. Ninguém é plano, ninguém é uma coisa só.

O desenrolar da história e sua reflexão me lembraram A vida é sonho, de Calderón de La Barca, em que o personagem principal vive também - mas de forma completamente diferente - os dois lados chapados de uma personalidade.

Calvino é amor eterno, amor verdadeiro. Que venham outros livros dele por aí!

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...