sábado, 17 de maio de 2014

Do Tio Almyr

Tia Sandra, que é da minha família paterna, me mandou outro dia uma foto com um quadro do Tio Almyr, da minha família materna. Não me lembro exatamente o motivo dela ter me mandando a foto. Mas gostei bastante

Tio Almyr é o irmão mais novo do vovô. Ele era cheio de talentos. Aprendeu a tocar violino sozinho. E foi assim também que aprendeu a pintar e a fazer mil mágicas. Ainda lembro do dia em que ele montou o baralho e jogou "Escopa" com Otávio, ganhando de 15 a zero, um resultado que nunca conseguimos alcançar.

Ele também fazia muitos - muitos mesmo - bichinhos em dobraduras. Não era só o pássaro que quase todo mundo faz, mas um monte diferentes, incluindo uma série de dinossauros. Ele sempre levava pra gente e fazíamos a festa com aqueles mil bichinhos diferentes. E também andava com essas dobraduras nos bolsos das calças e dos casacos e entregava para as crianças que via na rua, em especial para as carentes. Naquela época, era enorme o número de meninos de ruas em BH.

Uma vez, Tio Almyr foi ao banco fazer um depósito. Como sempre, estava com as dobraduras. Ao sair, alguém colocou a mão em seus bolsos e saiu correndo. O ladrão pensava levar uma bolada de dinheiro. Mas carregou pra longe um monte de bichinhos de papel.

Quando meu avô morreu, Tio Almyr sentiu muito. Vovô Ney era o irmão mais velho e o Vovô Procópio morreu muito cedo. Tio Almyr tinha pouco mais de um ano, vovô tinha feito nove anos. Vovô Ney assumiu a família, foi trabalhar e garantir o sustento dos irmãos, junto com a mãe dele, que começou a costurar para fora. A referência masculina do Tio Almyr, acredito eu, foi o meu avô. No velório e enterro do vovô, não tive coragem de ver o corpo. Fiquei numa sala ao lado, abraçada ao Tio Almyr, chorando muito. Ficamos nós dois ali, um dando apoio pro outro, enquanto a pessoa que a gente mais amava no mundo era velada e enterrada.

Talvez seja por isso que, quando o vovô morreu, o Tio Almyr se aproximou demais da minha família. E muito de mim também. Ele me chamava de "menininha" - uma menininha de 15 anos! - e fez um desenho meu a lápis. Pouco depois, fez esse mesmo retrato a óleo sobre tela. E três meses depois da morte do vovô, exatamente três meses, o Tio Almyr faleceu.

Tio Almyr não era um pintor extraordinário.
O bacana é que aprendeu sozinho :-)

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...