sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Centenário de Padre Mendes

Hoje é um dia especial pra mim e pra minha família. É o centenário do meu tio-avô e padrinho, o Padre Mendes. Mas, ao mesmo tempo, é um dia difícil, porque ele não está aqui, conosco. Padrinho era uma daquelas pessoas que a deixam saudade. E eu sinto falta dele praticamente o tempo todo.


Padrinho era uma pessoa muito querida. Seja na família Mendes Barros, seja em Ouro Preto ou em qualquer lugar por onde passava. Era uma pessoa super do bem, sempre disposta a ajudar todo mundo. Durante boa parte da vida, ele morou aqui em casa, com a vovó. E a casa vivia cheia de pessoas, que vinham conversar com ele, buscar um conselho, uma palavra amiga, ajuda. Vinha muita gente para aprender com ele. E padrinho sempre gostou de ensinar. Foi professor de grego, de português, de literatura e de inglês. Toda uma geração em Ouro Preto foi aluna dele.

Eu não tive o privilégio de tê-lo com professor em sala de aula. Por outro lado, a vida me deu o privilégio de conviver com ele em casa. E de aprender muito, porque ele foi um professor de vida. Como viu que, desde pequena, eu gostava de ler, ele me franqueou acesso ao seu quarto e aos seus livros. Eu era ainda criança quando ele me deu um livro que me marcou profundamente: A moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo. Li várias vezes a história e me apaixonei pela moreninha Carolina. A partir daí, ganhei vários outros livros dele, todos de literatura nacional clássica. E me diverti muito entre as suas estantes, buscando novas histórias.



Como padre, ele era muito acolhedor. Não era dogmático e inflexível, como muitos que vemos por aí. Sabia escutar os outros e era sempre carinhoso. Ele celebrava uma missa aos domingos que vivia cheia de estudantes. Nunca fechou os caminhos para quem a Igreja, às vezes, fechava as portas.

Jamais vou ser capaz de falar direito sobre ele. Porque meu coração sempre tente pra um amor infinito. Padrinho foi um presente em minha vida. Enquanto me faltava a figura paterna, já que o progenitor nunca esteve presente, era em meu padrinho, em vovô e em Paulo que eu encontrava - e encontro até hoje - o colo de pai. Meu olhar para meu padrinho sempre será parcial. Sempre tive e sempre terei ciúme dos muitos afilhados que ele tinha na família. E gosto de pensar que só a mim ele chamava de afilhada querida - espero mesmo, de verdade, ser a única a ocupar esse posto. Gosto de saber que um dos últimos sorrisos dele foi pra mim, já no hospital e quase inconsciente, um dia antes de vir a falecer. Também gosto de saber que, pouco antes, na UTI, ele me reconheceu e repetiu o afilhada querida, mesmo com a traqueostomia que não o deixava falar direito.

Mesmo assim, me vesti de coragem pra escrever, junto com o Paulo, uma biografia familiar do meu padrinho. O texto faz parte do livro O Semeador, escrito a várias mãos, e que marca o centenário dessa pessoa que é tão amada em Ouro Preto. Nosso texto não ficou à altura e deixou várias coisas sem ser ditas - não por omissão, mas por emoção. O livro foi lançado, mas ainda não o li inteiro - quanto terminar, volto e conto mais.

E é uma emoção enorme ter participado do primeiro lançamento, no dia 21 de novembro. Hoje tem o segundo lançamento e o início de uma programação cultural para celebrar seu centenário.

O livro

Nossa participação na obra



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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...