terça-feira, 10 de setembro de 2013

Livro: Morte Súbita

Morte Súbita é o primeiro livro de J. K. Rowling após os sete livros da série Harry Potter e dos três livros sobre o mundo do mago que ela publicou. Foi apresentado por ela como o primeiro livro "adulto" que escrevia. Comprei meu exemplar logo na semana de lançamento e ele ficou enfeitando a minha estante até agora.

O livro é completamente diferente de Harry Potter. Acredito que deve ter frustrado muito quem começou a ler pensando que encontraria uma narrativa tão confortável como era a do bruxinho (mesmo que o mundo dele fosse povoado do mal, com Voldermort e seus asseclas). Morte Súbita é um livro adulto e muito pesado.

A história começa com a morte por AVC aneurisma do conselheiro distrital Barry Fairbrother. Ele era morador de Pagford, um distrito da cidade de Yarvil. O Conselho Distrital era uma espécie de Câmara de Vereadores do local, que decidia questões públicas e levava as decisões ao Conselho Municipal de Yarvil. O maior problema de Pagford é o bairro Fields, resultado de uma compra de terras e com a construção de casas populares para abrigar pessoas que dependiam de ajuda do governo para viver. Essas pessoas eram bem pobres e marginalizadas, sendo boa parte delas usuárias de drogas, tratadas na Clínica Bellchapel. O Conselho Distrital de Pagford quer "devolver" Fields a Yarvil e pedir de volta o prédio alugado pra a clínica. Barry, ex-morador de Fields, defendia o bairro, a assistência do governo e a manutenção da clínica. Com a sua morte, a facção que não queria Fiels pertencendo a Pagford ganha força e inicia-se o processo eleitoral para ocupar a vaga aberta.

Tudo o que acontece na narrativa gira em torno de Barry Fairbrother e da eleição para o conselho. Os personagens vão sendo apresentados aos poucos e praticamente ninguém ali é bom o suficiente como era Barry. Tem os corruptor e os corruptores, tem que vá na onda do poder, quem só fofoca, quem se droga, quem se prostitiu, quem faz bullying, quem tenta sobreviver, quem bate, quem apanha, que briga, quem grita. Cada personagem tem a personalidade bem trabalhada e bem definida. E chega uma hora em que foi inevitável perguntar se haveria salvação para cada um deles.

Há trechos como o que mostra o pensamento de Howard, o presidente do Conselho Distrital de Pagford, que podem ser postos em paralelos com a situação do Brasil, comparado, por exemplo, com os usuários do Bolsa  Família e dos moradores de áreas degradadas de periferia: "Na sua opinião, não havia nada que impedisse os moradores de Fields de ter uma horta, nada que os impedisse de dar alguma educação àquela filharada sinistra encapuzada, sempre às voltas com latas de spray; nada que os impedisse de se unir e, em mutirão, dar cabo da sujeira e consertar tudo que estava caindo aos pedaços; nada que os impedisse de se lavar e procurar emprego... Absolutamente nada. Só podia ser uma coisa, era a conclusão a que chegava necessariamente: eles tinha, escolhido viver daquele jeito por livre e espontânea vontade, e a aparência de degradação um tanto ameaçadora do local nada mais era que uma manifestação física de ignorância e indolência daquela gente". Lembra o argumento de algumas pessoas em nosso país.

Dois personagens me deixaram com muito, mas com muito nojo. O primeiro foi Simon Price, gerente de uma gráfica em Yarvil e morador de Pagford. Ele é extremamente violento da porta pra dentro de casa. Não sei se o que ele faz pode ser chamado de assédio moral (acho que o termo só é válido para relações de trabalho). No mínimo, é violência doméstica das pesadas. Além da violência física o tempo todo, Simon pratica com "louvor" uma violência psicológica pesada com os filhos Andrew (a quem ele chama de Cara de Pizza, por causa das espinhas) e Paul (que recebe o apelido "carinhoso" de Paulinha). Ruth, esposa de Simon, tenta sempre colocar panos quentes na situação da família, mas também é abusada por ele, psicológica e fisicamente.

Outro que deu nojo foi Stuart Wall, um adolescente de 16 anos com os dois pés na sociopatia. A diversão dele era fazer os outros sofrerem. Especialmente se fosse Suhkvinder, a filha da médica paquistanesa, sua colega de escola. É um bullying tão forte que chega a dar vontade de entrar na história e dar uns sopapos no garoto.

Fora eles, tem uma série de personagens meio assustadores. E, ainda, O_Fantasma_de_Barry_Fairbrother, que deixa recados nada simpáticos no site do Conselho Distrital de Pagford.

A história é bem pesada. Os temas tratamos são corrupção, assédio sexual, drogas, pedofilia, violência domésttica, bullying. Impossível não se abater pensando que, mesmo que a autora diga que Morte Súbita é uma "grande história sobre uma cidade pequena", a história fala é sobre o mundo em geral. Pagford pode ser a sua cidade, o seu estado, o seu país. Mas também pode ser o seu bairro, seu condomínio, sua rua.

Sinceramente? Amei! Agora espero o lançamento do livro da autora escrito sob pseudônimo. Já vi comentários positivos a respeito.
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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...