sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Yes, we C.A.M.

Ou: de como fui parando de falar de times de futebol nas redes sociais

Já falei algumas vezes do meu time aqui, aqui, aqui e aqui. Não contei como comecei a torcer pro Galo e, pra isso, devo fazer uma reverência ao meu vizinho Ike. Quando me mudei pra BH, tinha 6 anos. E o prédio tinha um playground enorme e era cheio de crianças mais ou menos da minha idade. Tinha muito mais meninos que meninas, e como eu sempre fui mais pro lado das brincadeiras masculinas, me identifiquei logo de cara. E o Ike, com uma bola de futebol nas mãos, foi logo perguntando pra que time eu e meus irmãos torcíamos. Como aqui em casa ninguém era fanático por futebol, eu nem sabia que tinha essa coisa de time. Perguntei que times existiam e ele disse: "Atlético e Cruzeiro". Como, na época, Cruzeiro era o nome da moeda do Brasil e eu não queria torcer pra dinheiro (desde pequena desapegada, hahaha), resolvi ali que ia torcer pro Atlético. Pra felicidade da maior parte dos meninos do prédio (custou a ter um cruzeirense por lá) e pra minha também, porque sou feliz por ser atleticana. Mesmo nas derrotas, mesmo nas humilhações. Como dizia o Roberto Drummond: Se houver uma camisa branca e preta pendurada num varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento. Eu torço contra o vento. 

E daí que é natural fazer piadinha com os amigos cruzeirenses ou de outros times. É natural brincar com os amigos, seja o tema que for. Mas a gente vai aprendendo que existem pessoas que não sabem brincar. Com essas, a gente só fala a sério. Eu sei, hoje, com quem eu posso brincar e quem vai se ofender com qualquer coisa que eu falar. Só que apareceram as redes sociais e a coisa foi ficando feia. Primeiro com o Orkut, depois com o Twitter (que eu amo de paixão) e com o Facebook. E cada postagem de futebol começava a envolver briga. Começou com uma pessoa que eu conheço e que o Leo não gosta. Leo é cruzeirense, mas não é torcedor. Só que o garoto foi mexer com ele. Assim, de graça, do nada. E eu comecei a reparar como essa pessoa faz questão de ser chata quando o assunto é futebol. Daí pra reparar em mais um monte de pessoas, foi um pulo. 

E eu comecei a notar o quanto a torcida do futebol em geral é machista e sexista. Isso veio com o aumento das minhas leituras sobre feminismo porque, até então, eu não via nada de mais. Cruzeirense é chamado, em geral, de Maria ou de Smurfete. Atleticano é chamado de Franga. São-paulino é chamado de Bambi. Gente, pra quê isso???



Sério mesmo: por que reduzir uma coisa boa, que é o esporte, a um campo de batalha verbal e física, cheio de agressões pra todo lado? Isso acaba estragando o bonito do esporte, que é a torcida apaixonada e dedicada ao time. E só ao seu time. Enfim...

Assim, fui parando de comentar sobre o Galo nas redes sociais. No Facebook, então, praticamente me proibi. Só comento quando sou marcada em alguma postagem, desde que ela não seja excludente, sexista ou ofensiva. Nesses casos, desmarco meu nome e sigo a vida feliz. No Face, só comento quando é jogo do Brasil, seja de que esporte for. Mas ainda estou em fase de recuperação. Falo mais sobre o Galo no Twitter, mas mesmo assim é bem pouco, pra evitar passar raiva com essa animosidade ridícula que tem tomado conta das redes sociais.

Isso, por outro lado, não me impede de torcer, e muito, pelo Galo. Sempre. Como num casamento: na alegria e na tristeza. E ultimamente, veio muita alegria! Mas como ainda ando sofrendo com taquicardia causada por estresse (é sério!), optei por não ver os últimos jogos da Libertadores da América. Não vi Galo X Tihuana, nem a defesa fantástica do Vitor ao pegar um pênalti no final da partida. Não vi Galo x Newells Old Boys e tudo ser definido nos pênaltis. Não vi a final contra o Olimpia e os gols sofridos, a defesa do Vitor e a bola na trave do jogador do Olimpia ao final. Só vi cada jogo depois. Só chorei em cada lance depois. Só vibrei e tive vontade de gritar depois. Porque só assim pra garantir minha integridade física (e eu ando precisando muito dela). E, mesmo com a vontade de gritar, de falar, de comentar, me abstive de comentar nas redes sociais. Porque nada poderia ser mais bonito que a vitória do Galo, com sofrimento, como sempre. Nada, nenhum torcedor idiota, do meu time ou de outros, poderia manchar a vitória do Galo. E foi melhor assim. Me abstendo de ver os comentários sexistas, as piadinhas sem graça, as besteiras publicadas em cada canto. Cada um é livre pra falar o que quiser, desde que não ofenda o outro. E eu sou livre pra não compactuar com esse clima de guerra que tem cercado, cada vez mais o futebol.

Porque, pra mim, esporte é diversão. É para aliviar a alma do peso do dia a dia, é para juntar amigos e rir bastante, para rir e contar piadas que sejam realmente brincadeiras saudáveis. É para ter muita emoção, como foi a do meu amigo Ricardo, atleticano roxo, que chorou após a vitória e fez o Yann, filho dele (e meu sobrinho do coração) comentar que nunca tinha visto o pai chorar. Não é pra brigar, ofender, desqualificar, agredir (com palavras, com gestos ou atos).

Para ler um texto lindo sobre as vitórias do Galo no Libertadores, tem este aqui, do blog da jornalista Ana Paula Pedrosa.

E, só pra completar, tem Leo e eu, há alguns anos. Ele com a camisa do Cruzeiro, eu com a camisa do Galo, e a gente juntos, sendo felizes, mesmo com as nossas diferenças.

Eu de cabelo curto, ele sem barba. 


_______________
Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...