sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre mentira o omissão

Todo mundo mente ou omite. Não existe (não mesmo) uma pessoa que não minta ou que não omita. Se alguém por aí afirma que não mente, já está mentindo, na própria afirmação.

Pausa pra dizer que conheço uma pessoa que um dia, num restaurante, teve a coragem de afirmar isso. Já não era uma pessoa que passava credibilidade. Depois dessa, então... E, olha só, a mesma pessoa "que não mente" já foi pega em tantas mentiras ardilosas que um grupo inteiro de pessoas começa a rir quando ela tenta pregar mais uma inverdade.

O fato é que escolhemos o que queremos fazer com a mentira e com a omissão. Fazendo uma análise bem grosseira, acredito que eu omito mais do que minto. Pelo menos é o que mais parece assim, olhando superficialmente. Em geral, minto para não desagradar alguém. "Nossa, que bacana" ou "Claro, vou sim" ou ainda "Pode deixar que te ligo" (essa é péssima, detesto ligar pra alguém, seja quem for. Aliás, detesto telefone). Não me lembro de ter falado grandes mentiras que prejudicaram pessoas e tal. Mas como todo mundo sabe que a minha memória não é boa... pode ter acontecido.

Já a omissão é mais comum. Especialmente porque não gosto de contar certas coisas pra certas pessoas. "Você conhece a fulana que namorou ele antes de mim?" em geral tem como resposta "Sei quem é, mas não convivi muito com ela".  Porque, né, eu não preciso participar desse tipo de ciclo de paranoia. Ou "Fulano me disse que amou tal coisa" recebe um "Olha, que legal" em resposta, se eu sei que o Fulano odiou. Pra quê incentivar inimizades?

Omito muita coisa da vovó. Em geral, pra evitar que ela sofra. Por exemplo, quando o Tio Antonino fez uma cirurgia pra retirada de um câncer e ficou muito mal de saúde, eu não contei pra ela. Só abri o jogo quando, dias depois, o tio faleceu. Ou quando a Tia Vera precisa fazer uma cirurgia, deixo pra contar depois, pra vovó não ficar ansiosa. Porque uma coisa é ela ficar preocupada com uma prova que eu tenho que fazer; outra é se preocupar com a saúde de alguém. Então, o que omito da vovó é pensando em evitar seu sofrimento.

Acontece que tem uma pessoa aí que, por um longo período, mentiu pra mim. Foram anos e anos de histórias e mais histórias de dor e sofrimento que me faziam ficar carregada, cheia daquela dor, pensando em mil maneiras de ajudar, propondo soluções, avaliando caminhos. Eu dormia com os problemas da tal pessoa, acordava com eles, viva com eles.

Daí, um belo domingo, a pessoa passa umas duas horas conversando comigo, no quarto da vovó, me contando o quanto ela sofre, o quanto está difícil, o quanto ela quer mudar. E eu, ali, enchendo a minha cabeça com os tais problemas. Na tarde do mesmo dia, a tal pessoa foi embora de Ouro Preto com a minha sogra. E durante a viagem, as duas conversaram bastante. Quando chegou em BH, minha sogra me procurou pra conversar e me contou o que a pessoa falou com ela. Era EXATAMENTE o contrário de tudo o que me disse pela manhã e por vários anos anteriores. Contrário mesmo. Pra mim, disse "escuro", pra ela disse "claro"; pra mim disse "pesado", pra ela disse "leve".

Isso me deixou possessa. Comigo, em primeiro lugar, porque não percebi que vinha sendo manipulada por anos e anos e anos. Com a pessoa mentirosa, em segundo, porque mentia para me fazer sofrer. Mentia para que, com o meu sofrimento, eu passasse a resolver a vida dela, a viver a vida dela. Era, de certa forma, uma prisão muito bem montada. E a ingênua aqui caiu direitinho. Só depois do que a sogra me contou é que consegui ligar os pontos e ver que estava presa em uma rede de sofrimentos de mentira, deixando de viver a minha vida para tentar resolver os problemas inexistentes de outra pessoa. E, justamente por serem inexistentes, é que os problemas nunca se resolviam, por mais soluções que eu encontrasse.

Isso tudo aí é pra dizer que, por mais que seja impossível viver sem mentir ou sem omitir, há algo chamado intenção. E é a intenção que vai determinar se a mentira ou a omissão podem, algum dia, ser consideradas positivas ou neutras ou negativas.

E, não, os fins não justificam os meios.

P.S.: Ando lendo algumas coisas esparsas sobre a moralidade para Kant. É muito bonito, mas me parece impossível de seguir. Ao menos, consegui aplicar uma ou duas coisas na vida e quero tentar mais. Vou continuar aprendendo.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...