terça-feira, 23 de julho de 2013

Livro: O evangelho segundo Jesus Cristo

E eis que terminei a leitura de O evangelho segundo Jesus Cristo, livro da segunda edição do Clube de Leitura Set Palavras. Eram duas opções: o Saramago e Memórias Póstumas de Brás Cubas, que eu li em mil novecentos e antigamente. Escolhi o Saramago porque dele só tinha lido Ensaio sobre a cegueira. O resultado é que me apaixonei pelo livro.

Logo no primeiro capítulo temos uma análise do que parece ser uma pintura da paixão de Cristo. O narrador onisciente vai desvendando as expressões, as posições de cada personagem, o que eles poderiam estar pensando, como chegaram até ali. Confesso que jamais imaginei que o texto começaria desse jeito.

A partir do segundo capítulo, inicia-se a história da vida de Jesus. E, como não podia deixar de ser, Saramago faz uma narrativa brilhante, emocionante, cheia de detalhes. Talvez seja preciso lembrar que O evangelho é uma história ficcional. E, mais ainda, escrito por um ateu. Então, quem estiver querendo fidelidade à bíblia só vai encontrar em um personagem, muito específico: Deus. O Deus do livro tem todas as características do Deus do Antigo Testamento. Um deus vaidoso, ardiloso, cheio de artimanhas, quase mau. Aliás, em alguns momentos, bem mau. Jesus já é um cara rebelde, que só aceita seu destino de cordeiro de Deus após uma longa conversa com Deus e o Diabo no meio do mar (uma metáfora linda para os 40 dias em que Jesus passou no deserto, sendo tentado). Sim, no livro, ele se conforma com seu destino e com o sofrimento de muitos que vieram depois dele, apenas porque o destino já estava traçado por Deus. Ainda estou maravilhada com as últimas palavras de Jesus no fim da história (que todo mundo já conhece, não é?).

O personagem que mais me fascinou foi José, o pai de Jesus. O homem que carregou as mortes de várias crianças de Belém nas costas, porque só se preocupou em salvar sua família. O homem bom que se estabeleceu como carpinteiro em Nazaré e que amou os filhos e a mulher, era um bom judeu, temente a Deus e cumpridor da lei, que colaborou com seus vizinhos em vários momentos e que, ao tentar ajudar uma pessoa, acabou sendo levado à morte, e morte de cruz, aos 33 anos, sendo inocente. A história de José fez meu coração doer. E Maria Madalena, que mulher bacana!

Abro um parênteses sobre essa questão do ficcional, que falei no início do texto. A Bel, minha amiga querida, leu o livro e não gostou. Não sei se foi exatamente o caso, mas entendi que a expectativa não correspondeu à realidade, que ela achou desrespeitosa a caracterização dos personagens. O texto da Bel sobre o livro está aqui. A minha opinião é outra. Não achei o livro desrespeitoso. Talvez porque, no momento, não tenho religião. Mas já fui católica apostólica romana, já trabalhei muito na igreja, fiz parte de um monte de grupos e pastorais, já estudei muito a Bíblia. E o que mais se ressaltou do livro pra mim foi o Deus do Antigo Testamento, que é bem diferente do Deus que Jesus apresenta no Novo Testamento bíblico. Jesus apresentou um outro deus, bem diferente daquele dos judeus. E Saramago preserva isso. Se o Deus antigo é cruel, vaidoso, até incoerente, o Deus que Jesus queria é bem mais condizente com que esperamos de algo/alguém nessa "posição".

Mas volto a dizer que não achei o livro desrespeitoso porque a proposta dele não é essa. É ser ficção, usando  vários elementos da história bíblica. Como muitos autores fazem (a série Ramsés é um exemplo bem "best seller" de ficção com um pé na história). E como ficção, é maravilhoso.

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Aline, que prefere ser chamada de Lile. Ou de Nine...