domingo, 9 de junho de 2013

Filme: Descartes

Cartesius - 1974 (mais informações aqui)
Direção: Roberto Rossellini
Roteiro: Marcela Mariani, Renzo Rossellini
Elenco: Ugo Cardea, Anne Pouchie, Claude Berthy

O filme Cartesius, que conta a vida de Renne Descartes, foi feito para a TV italiana, com direção de Roberto Rossellini. É uma produção interessante, porque teve a consultoria do estudioso Ferdinand Alquié e várias falas do filme constam nas obras de Descartes. Assisti no primeiro dia de aula de Filosofia Moderna I e foi bem interessante.

A história começa com Descartes ainda na escola, em seus últimos anos como aluno do colégio de La Fleche, uma das principais escolas francesas da época. Ele é um estudante interessado, que quer saber cada vez mais e recebe autorização para estudar em livros não permitidos aos alunos. Ao sair da escola, ele vai morar em Paris, mas não se adapta e resolve ingressar no exército do Maurício de Nassau, na Holanda. Por lá, ele conhece pensadores e matemáticos e começa a formular suas teorias, que serão impressas bastante tempo depois.

Uma coisa interessante do livro é que ele sempre mostra Descartes com ar de superior (a cara do ator é impagável), circulando por todos os cenários com uma espada na cintura, seja em casa, nas aulas de anatomia, nas ruas, em piqueniques. Sempre espada. Outra coisa curiosa é que, quando não está com a espada no cinto, Descartes está de camisola dormindo e sendo acordado por seu criado. Quando mora na França, ele dorme até tarde, sendo sempre interrompido por uma visita. Quando fora da França, ao ser acordado, ele sempre reclama que sente falta das camas francesas.

Mas voltando ao propósito do filme: Descartes viveu numa época em que questionar a igreja era pecado. E pensadores como Copérnico e Galileu estava fazendo justamente isso e sendo punidos. A mudança para a Holanda, um país de religião protestante, fez com que ele desenvolvesse mais livremente seus pensamentos, mas não o livrou do medo de publicar. Quando estava pronto para publicar seus estudos sobre o mundo, ele decidiu não fazê-lo: publicou apenas a introdução, o Discurso do Método, em que conta como criou um novo método baseado na razão, algo que depois veio a ser considerado um dos primeiros métodos científicos. O restante do livro foi publicado depois.

Descartes, apesar de viver em um país protestante, era católico fervoroso. Ele acreditava que era possível fazer ciência e acreditar em Deus. Uma de suas teses mais conhecidas, a do Cogito (penso, logo existo) tem implicações religiosas. A proposta era duvidar de tudo que os sentidos nos diziam, mas por pensar, posso ter certeza apenas da minha existência. Essa certeza, mais à frente, leva à certeza da existência de Deus como criador de todas as coisas. É uma teoria muito bonita. Que ele resume em Meditações sobre Filosofia Primeira, seu último livro, que estou lendo atualmente. Depois escrevo sobre ele.

O filme mostra como Descartes dedicou a vida à filosofia, ao conhecimento, ao saber. Ele abre mão do contato com a família, com amigos, com a filha (que teve com uma de suas empregadas e que morreu ainda criança) para desenvolver a sua obra. Senti falta de muitas conexões entre as histórias, acho que é um problema de roteiro, mas o filme entrega o que se propõe: um panorama amplo sobre a vida do personagem, sem entrar em detalhes.