sábado, 11 de maio de 2013

Minhas nonagenárias e suas particularidades

Há tempo eu costumava dizer que a minha família era como um Clube das Octogenárias. O tempo foi passando e muita gente foi nos deixando. É natural quando a família é idosa. É até mais fácil de lidar com a morte quando todo mundo tem mais ou menos a mesma idade. A gente aprende que a dor nunca para, mas fica bem melhor quando a saudade sobressai. E é a saudade que deve prevalecer.

Digo isso porque as duas mocinhas que fazem meu coração acelerar, Vovó e Tia Ylza, já passaram dos noventa. Vovó faz 95 em julho e Tia Ylza faz 91 em setembro. As duas continuam a me surpreender. Pela disposição e pela personalidade.

Vovó está bem cansadinha, bem estressada. É que Paulo está viajando e ela não dá conta de ficar longe dele. Sempre sofre, sempre fica ansiosa, sempre arruma mil dores em todos os cantos do corpo uns dois dias antes dele viajar. E só melhora, só relaxa, quando ele volta. Ainda bem que ele está voltando. Vovó é assim porque é filha do Vovô Camillo. E dizem que ele era um ansioso daqueles, de repetir a mesma frase um milhão de vezes, de estar pronto pra sair meia hora antes do momento combinado, de querer tudo certinho, do jeito dele. Aqui costumamos brincar, quando vovó fica ansiosa, dizendo que nem precisa de DNA, ela é mesmo filha de Sô Millo (como costumavam chamar meu bisavô).

Tia Ylza tem a personalidade mais marcante. Às vezes é mais fácil de lidar com ela do que com vovó, porque ela quase não é ansiosa. Mas é muito teimosa. Se ela colocou uma coisa na cabeça, não adianta tentar tirar. Ela encasqueta com uma coisa e levanta aquela bandeira até a gente desistir. Na última quarta, encontramos ela com o lado esquerdo do rosto bem inchado. Uma bolinha no olho. Parecia um terçol. Ela disse que o rosto estava doendo, em volta da bolinha, mas não queria remédio, não queria médico, não queria nada. Na sexta, a bolinha ainda estava lá, o olho lacrimejante e a pele da testa cheia de bolinhas de alergia. A conclusão a que chegamos é que ela deve ter sido picada por um inseto à noite (uma aranha, tenho quase certeza, mas não quis dizer isso a ela). Sugeri um médico, de novo. Ela disse que não, que estava ótima. Falei, então, que no sábado, quando voltasse lá, se ela não tivesse melhorado, eu levava ela ao médico de qualquer jeito. Ela me olhou daquele jeito bravo e disse: "Então não vem aqui amanhã, Aline!". Daqui a pouco eu vou pra lá. E sei que, não importa como ela estiver, não vou conseguir levá-la ao médico.

Cuidar das duas nonagenárias dá um trabalhinho. Mas é um trabalho gostoso, prazeroso. Até porque me permite aproveitar, mais do que ninguém, a companhia dessas duas lindas.