sábado, 20 de abril de 2013

Livro: On the road

Vi o filme On the road ano passado (e não escrevi nada sobre ele e sobre outros tantos que vi no segundo semestre. Vou corrigir isso em breve). Nunca tinha lido o livro mas, como gostei do filme, resolvi ler. Comprei a versão de bolso da L&PM, com tradução, introdução e posfácio de Eduardo Bueno (aquele da coleção de livros sobre o descobrimento do Brasil). Ele conta como se apaixonou pelo livro e por Jack Kerouac. Também mostra como o livro influenciou gerações e foi aclamado e odiado ao mesmo tempo. Importante falar que, antes da tradução do Eduardo Bueno, os brasileiros só tinham acesso à versão em inglês ou as traduções para o espanhol ou para o português de Portugal, o que dificultava um pouco a leitura.

O narrador é Sal Paradise, um jovem que queria ser escritor e ansiava por novas experiências. Ele já tinha ouvido falar de Dean Moriarty, um delinquente juvenil que escrevera cartas ingênuas para um amigo em comum. Quando ele finalmente conhece Dean é que começa o que Sal chama de "minha vida na estrada". Dean estava se divorciando de Marylou, mas continuava junto a ela. Os dois tinham vindo de Denver para Nova York e queriam curtir a cidade. Sal se encanta com Dean e seu jeito meio maluco de querer curtir a vida. A partir desse primeiro encontro. Sal passa toda a narrativa contando de suas viagens, partindo de Nova York para São Francisco, quase sempre passando por Denver, e com pequenas paradas em algumas cidadezinhas ao longo desse percurso. Em geral sem dinheiro, os amigos precisavam arrumar algum trabalho braçal para conseguir bancar as viagens ou viver de caronas ou, ainda, experimentar parte do percurso à pé.

A vida amorosa de Dean é uma loucura. Ele se casa várias vezes e vive pulando entre Marylou, Camille e Inez. Além delas, busca sexo sempre que coloca o pé para fora de casa. Marylou era chamada de piranha o tempo todo e sempre que os dois brigavam Dean era violento com ela. Para ele (e, aparentemente, para seus amigos), tudo bem dar umas porradas em mulher. A primeira vez que Marylou apanha, bem no comecinho do livro, foi fundamental para que eu pegasse nojo de Dean Moriarty e me perguntasse, ao longo de todo o livro, o que, afinal Sal Paradise viu nesse cara?

Sal parece ser um cara legal, mas meio sem personalidade. Ele vai na onda de Dean, seguindo-o quase como os fanáticos seguem a um profeta. Perde um emprego certo em um navio por causa do cara. Vê sua tia ficar apreensiva com essa amizade, mas não se abala. Gasta o que tem e o que não tem para atravessar o país correndo atrás de Dean. E o sujeito nem dá tanto valor assim a Sal. Em certos momentos ele chega a dizer que Sal é o seu melhor amigo, mas em geral não demonstra isso com atitudes (vide a viagem ao México).

Parece que Dean é aquele cara com a autoestima lá embaixo. Ele precisa se apaixonar o tempo todo, seja por uma mulher, por um amigo, por uma situação, por um caminho. E a paixão passa rapidinho. Ele conhece alguém, acha a pessoa a melhor do mundo, suga dela o que pode para depois contar aos outros e se manda. Porque parece que tudo é pouco para ele. Como se ele fosse um vaso furado que precisa ser preenchido o tempo todo, mas o furo lá embaixo faz o conteúdo acabar rápido e, logo logo ele precisa de mais e mais e mais. Talvez seja o seu jeito sempre ansiando por novidades que tenha seduzido Sal. O fato é que Dean parece uma pessoa perdida, que não sabe o que quer, mas tem certeza que a vida dos outros é melhor do que a sua.

O livro é bastante interessante, especialmente para mostrar o clima daqueles anos loucos das décadas de 1940 e 1950. Mas Dean me deu preguiça por ser tão perdido e Sal me deu preguiça por ser tão obcecado pelo amigo. Talvez, se eu tivesse lido On the road com 16 anos, teria me apaixonado pelo jeito dos dois. Talvez tivesse sido o livro da minha juventude, porque me lembro que, nessa idade, morria de vontade de viajar, de correr o mundo, sem hora pra voltar. Não que eu não queira viajar hoje. É um sentimento diferente. Hoje sou quase refém de planejamentos, de planos, e sempre amo voltar pra casa. Naquela época, o sonho era apenas ir, como Sal e Dean fizeram. Por isso que acho que, no fim das contas, o livro veio na época errada.